Cinco Votos para Obter Poder Espiritual.

Primeiro - Trate Seriamente com o Pecado. Segundo - Não Seja Dono de Coisa Alguma. Terceiro - Nunca se Defenda. Quarto - Nunca Passe Adiante Algo que Prejudique Alguém. Quinto - Nunca Aceite Qualquer Glória. A.W. Tozer

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domingo, 5 de agosto de 2012

VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA OU EMOCIONAL




Embora já tenha feito uma primeira abordagem ao tema aqui, só hoje optei por descrever de forma mais profunda as relações conjugais marcadas pela violência emocional (ou psicológica). E por que o faço antes mesmo de me centrar na violência doméstica mais comum, ou seja, a violência física? A resposta é simples: a violência emocional é a mais silenciosa das formas de violência doméstica e, por isso, não é alvo da mesma atenção por parte da generalidade dos meios de comunicação social.

Este é um problema com tantas subtilezas que, muitas vezes, nem a própria vítima tem noção de que está a ser alvo deste tipo de abusos. Enredado numa série de tentativas de manipulação, o cônjuge agredido pode levar algum tempo até se aperceber de que faz parte das estatísticas de violência doméstica. Por isso, importa identificar as especificidades deste tipo de relação.

Como já referi, a manipulação é uma ferramenta a que o cônjuge agressor recorre com frequência. Nesse sentido, o cônjuge agredido (ou a vítima) é acusado(a) de estar na origem de todos os problemas do casal. Mais: através de cenas mais ou menos melodramáticas (características das personalidades histéricas), que podem incluir choro e gritos desmesurados, o agressor procura que o cônjuge se sinta culpado. Esta característica estende-se a outras áreas da vida, já que estas pessoas tendem a considerar que todos os acontecimentos negativos da sua vida são da responsabilidade de terceiros.

De facto, tanto no quotidiano como na vida conjugal em particular, o agressor procura dar uma imagem de si próprio de grande vítima, grande sofredor, a quem tudo (de negativo) acontece.

Além disso, o agressor tende a minimizar todos os argumentos e queixas do cônjuge enquanto empola as suas próprias necessidades. Encara-as como mais urgentes ou mais importantes e, através de atitudes egocêntricas, busca a atenção contínua e a satisfação de todas as suas vontades.

Para isso, estas pessoas recorrem frequentemente a palavras depreciativas ou humilhantes, capazes de abalar seriamente a auto-estima do cônjuge. Note-se que este problema atinge todo o tipo de pessoas, mesmo aquelas comummente consideradas inteligentes ou cultas.

O agressor pode chegar a fazer acusações mais ou menos despropositadas do tipo “Tens um(a) amante”, das quais a vítima procura defender-se, gerando um ciclo vicioso. O facto de haver uma ligação emocional impede que a vítima se aperceba de que está a ser alvo de manipulação.

Mas os actos depreciativos não se esgotam por aqui. Normalmente o agressor usa a violência verbal para humilhar (ainda mais) o cônjuge. Sem dar conta, a vítima acaba por achar normal que, quando está nervoso, o agressor lhe chame nomes horríveis. Isto deve-se ao facto de estes actos serem normalmente seguidos de pedidos de desculpas mais ou menos lamechas em que o agressor não reconhece, de facto, o erro e, em vez disso, refugia-se no facto de “estar nervoso”. “Não ligues” pode ser uma frase recorrente. Ou seja, mais uma vez, as queixas da vítima são desprezadas.

Também as características positivas do cônjuge agredido podem ser alvo de chacota – “É a única coisa boa que tens” ou “Sem isso não eras nada” não são mais do que golpes baixos numa tentativa de destruir a auto-estima do outro e, assim, conseguir controlar a relação.

Estes ciclos viciosos podem agudizar-se se o agressor conseguir alcançar um dos seus objectivos: afastar a vítima de todas as pessoas que possam ajudá-la a identificar o problema. Se a manipulação atingir este nível, o cônjuge agredido pode levar mais tempo a reconhecer que está a ser alvo de abusos. Se não, é possível que mais cedo ou mais tarde a vítima dê um murro na mesa.

Lembre-se: amar não é isto. Existe ajuda

DEPRESSÃO PÓS-PARTO II



Já tive oportunidade de escrever sobre esta forma de depressão aqui. Desta vez, transcrevo a entrevista que concedi ao Correio da Manhã:
O que é a depressão pós-parto? Por que surge?
A depressão pós-parto é uma das formas da doença depressiva. Desvalorizada durante muito tempo, nem sempre foi suficientemente bem diagnosticada. Existem, por isso, muitas mulheres que terão sofrido desta perturbação e que não terão obtido o tratamento merecido. Para além dos factores psicológicos, existem alterações hormonais que poderão estar na origem da doença. Sabe-se que logo a seguir ao parto a mulher atravessa uma quebra hormonal intensa e há estudos que apontam para a influência dessa alteração no estado emocional.
A azáfama natural deste período, associada ao desejo intenso de corresponder às expectativas sociais e familiares leva a que muitas mulheres evitem procurar ajuda, mesmo quando se sentem emocionalmente exaustas. Infelizmente, o facto de se recusarem a olhar para o problema não faz com que ele desapareça.
A maternidade é, em si mesma, avassaladora e com ela a mulher tem ainda que lidar com as alterações corporais, falta de tempo, noites consecutivas de sono entrecortado e falta de energia.
Quais os comportamentos mais frequentes na mulher com depressão pós-parto?
Não creio que possamos falar de comportamentos diferentes, mas antes de um estado emocional que é seguramente diferente. Como a exaustão acaba por estar associada ao nascimento do primeiro filho, pode ser difícil para a própria mulher reconhecer que estará a ultrapassar os seus limites e que o desgaste que atravessa já não é "normal". Como a pressão é grande, algumas mulheres atribuem a tristeza, a desmotivação e o desinteresse ao facto de estarem comprometidas com o papel maternal, que é muito absorvente. Mas a verdade é que se a mulher se sentir incapaz de enfrentar os diferentes papeis da sua vida deve procurar ajuda especializada, para que seja feito um diagnóstico rigoroso.
Como noutras formas de depressão, existem casos mais moderados e outros mais graves. Nos casos em que a depressão pós-parto toma uma forma mais severa, a mulher pode sentir-se incapaz de cuidar do seu bebé, ou recusar-se a fazê-lo, o que acaba por tornar o problema mais visível. Noutros casos, há um esforço sobre-humano para manter os cuidados prestados ao bebé, apesar da tristeza intensa, do cansaço anormal e do desespero que caracteriza o transtorno depressivo.
O suicídio pode ser o limite nestas situações?
Como referi antes, a depressão pode apresentar-se sob formas mais moderadas ou mais graves. Quanto mais grave for a situação, quanto mais severos forem os sintomas, maiores são os riscos. De um modo geral, a depressão pós-parto não evolui para uma situação de maior severidade, mas cada situação acarreta as suas especificidades.
Há pessoas mais propensas à depressão pós-parto que outras? Se sim, dê exemplos...
Qualquer mulher pode vir a sofrer de depressão pós-parto, mesmo que nunca tenha sofrido de qualquer perturbação emocional. Contudo, existem algumas mulheres que podem estar mais expostas a este transtorno:
- mulheres que sofreram de transtornos depressivos antes da gravidez;
- mulheres que já sofreram de depressão pós-parto numa gravidez anterior;
- mulheres que experimentem uma gravidez não desejada;
- mulheres que viveram problemas emocionais/ relacionais intensos durante a gravidez.
De que forma se pode ajudar as depressivas pós-parto? Qual o papel do marido nestas situações?
Como uma das grandes dificuldades está relacionada com a incapacidade de cumprir com todas as obrigações, a mulher que sofre de depressão pós-parto pode e deve ser ajudada por quem está à sua volta, nomeadamente pelo marido e pela sua própria família de origem. Um dos problemas mais comuns na vida de um casal depois do nascimento do primeiro filho prende-se com a dificuldade em gerir o seu tempo, bem como as tarefas que poderão ser desempenhadas por cada um. Actualmente é praticamente impossível que um dos membros do casal possa dedicar-se a tempo inteiro à criança nos seus primeiros tempos de vida, o que implica logo à partida algum desconforto quanto à ideia de “abandonar” o recém-nascido aos cuidados de terceiros. Se os dois membros do casal trabalharem fora de casa é de esperar que quer as tarefas domésticas, quer os cuidados prestados ao bebé sejam desempenhados a dois, no entanto, esta não é a alternativa mais frequentemente adoptada. Os estereótipos implementados na nossa sociedade levam muitas mulheres (e homens) a acreditar que o bebé deve ser mais acompanhado pela mãe. Nesse sentido, os homens são muitas vezes relegados para segundo plano no que respeita a este tipo de tarefas. Ora, no caso de um diagnóstico de depressão pós-parto a divisão destas tarefas torna-se ainda mais pertinente.
Quanto maior for a ajuda que a mulher receba nesta altura, maior será a probabilidade de ela se sentir "livre" para investir em si mesma, sem culpas ou remorsos. Por exemplo, conseguir ir ao ginásio duas vezes por semana pode ser importante para recuperar a energia, a auto-estima e o auto-controlo.
Além disso, é fundamental desmistificar a ideia de que a depressão é um sinal de fraqueza e ajudar a doente a recuperar a sua auto-estima, reconhecendo que este é um problema comum a muitas mulheres, e que é absolutamente tratável.
O acompanhamento médico é obrigatório?
Em muitos casos, o apoio da família é o suficiente para que a mulher recupere o seu bem-estar. Contudo, este princípio não é aplicável a todas as situações. Como comecei por dizer, existem muitos casos de depressão pós-parto que não são diagnosticados e que, por isso, não são tratados. Ora, algumas dessas situações acabam por arrastar-se ao longo de meses ou anos, implicando o sofrimento da mulher e da sua família. Não raras vezes, a mulher é confrontada com um diagnóstico de depressão anos mais tarde, apesar de a génese do problema estar no período pós-parto.
O acompanhamento médico permite que a mulher receba o tratamento adequado às suas dificuldades e possa ser encaminhada para um processo psicoterapêutico, que até pode incluir a participação do marido. Esta é a forma mais eficaz para recuperar o bem-estar e a harmonia.

DEPRESSÃO PÓS-PARTO


Num dos últimos programas de Oprah Winfrey a que assisti, Brook Shields revelou ao mundo que tinha sofrido de depressão pós-parto. Esta entrevista permitiu que milhões de pessoas em todo o mundo pudessem confrontar-se com uma realidade poucas vezes assumida.

Se, por um lado, toda a gente já ouviu falar neste tema, também é verdade que poucos conhecem exemplos práticos. Mas isto não quer dizer que este problema seja pouco frequente. Pelo contrário: muitas mulheres sofrem em silêncio com esta realidade, o que, em muitos casos, prolonga a depressão por meses ou anos!

Embora ainda haja muito por estudar acerca deste tema, sabe-se que a quebra abrupta de determinadas hormonas aquando do nascimento do bebé constitui um factor importante no desenvolvimento desta doença.

Por outro lado, as alterações corporais, as mudanças drásticas no quotidiano e a confrontação com uma realidade bastante diferente da idealizada constituem pistas importantes para quem pretenda compreender melhor este drama.

A generalidade das imagens mãe-bebé veiculadas pelos anúncios da especialidade constituem “publicidade enganosa” para todas as candidatas a mães. De facto, o período pós-parto é praticamente incompatível com rostos imaculadamente maquilhados e livres de olheiras, cinturas finas e unhas arranjadas. Ainda assim, por que é que aparecem mulheres com ar de manequim ao lado de bebés sorridentes?

As jovens mamãs não devem deprimir-se com o facto de não serem, ao mesmo tempo, super-mulheres, super-profissionais e super-modelos. Mas deprimem-se e, nesse caso, sentem-se incompetentes em todas as áreas das suas vidas. É por isso (em associação a outros factores) que algumas mulheres rejeitam os seus bebés e não conseguem viver em pleno a maternidade.Daí que a entrevista de Brook Shields tenha sido tão importante. Correndo o risco de ser severamente criticada, ela teve a coragem de falar abertamente sobre a sua experiência e, assim, ajudar muitas mulheres. Como? Levando-as a pedir ajuda especializada, tal como ela fez. Além disso, ela também ajudou muitos homens, permitindo-lhes um enquadramento lógico para os comportamentos inesperados das respectivas mulheres.

DEPRESSÃO NA ADOLESCÊNCIA


A adolescência é, acima de tudo, um período em que ocorrem diversas mudanças em simultâneo. Ao mesmo tempo que o corpo muda, as hormonas galopam, as emoções estão à flor da pele, as regras aplicadas à infância deixam de fazer sentido, as tomadas de decisão tornam-se imperativas e… as vantagens da idade adulta ainda estão longe. Neste processo de crescimento, aprendizagem e autonomização nem sempre é fácil gerir as emoções – para alguns adolescentes o turbilhão dá mesmo lugar a um transtorno depressivo, que nem sempre é identificado e tratado.

Não devemos confundir a depressão com a melancolia ocasional que afecta a generalidade dos jovens, ou com as mudanças de humor típicas da idade. Importa, por isso, conhecer os sinais que podem indiciar a presença de uma perturbação cujas repercussões podem ser graves:
• Quebra no rendimento escolar.
• Afastamento dos amigos e abandono das actividades/hobbies habituais.
• Irritabilidade e raiva.
• Reacção exagerada a qualquer crítica.
• Baixa auto-estima e sentimentos de culpa.
• Dificuldades de concentração.
• Inquietação.
• Problemas do sono ou de alimentação.
• Consumo de substâncias.
• Problemas com a autoridade.
• Pensamentos suicidas.

A presença de alguns destes sintomas durante dias ou semanas seguidas não deve passar em claro. Os pais e outros educadores devem estar atentos e procurar a ajuda especializada de um médico ou de um psicólogo. A falta de resposta eficaz pode agudizar o problema, conduzindo o adolescente a situações (ainda) mais sérias e que podem envolver o consumo de drogas, violência ou o suicídio.

Para alguns pais e professores, o stress associado às mudanças da adolescência é “normal” e não deve ser visto como um real problema – afinal, por algum motivo lhe chamam a idade do armário. Mas se é verdade que, apesar da dureza das mudanças, a maior parte dos adolescentes acaba por contrariar estes desafios através da construção de amizades, do sucesso académico ou da concretização de actividades extracurriculares que contribuam para a elevação da auto-estima, também é verdade que há muitos adolescentes a sofrer de depressão – e apenas cerca de 20% destes adolescentes acabam por receber o acompanhamento apropriado. É que, ao contrário dos adultos, os adolescentes não procuram ajuda sozinhos – eles confiam nos pais, professores e nos outros adultos que os acompanham para que estes sejam capazes de identificar os sinais e sintomas e peçam ajuda.

Como nem todos os adolescentes se mostram tristes e abatidos (como acontece com a generalidade dos adultos deprimidos), pode ser difícil reconhecer o problema. Em muitos casos, os sintomas associados à revolta e à irritabilidade acabam por ser os que mais sobressaem.

Mas se os conflitos com os pais são expectáveis – em particular porque do processo de autonomização resultam invariavelmente divergências e dificuldade em criar e aplicar novas regras – a presença de alguns sintomas ao longo do tempo não é normal, mesmo que esses sintomas pareçam apenas demonstrações de mau humor, sem causas identificáveis. Na verdade, trata-se da forma encontrada para gerir as dores emocionais.

Então, o que é que os pais e os outros educadores devem fazer?
• ESTAR LÁ. De um modo geral, os adolescentes não gostam que lhes façam muitas perguntas, pelo que a ideia de os confrontar com qualquer coisa que se assemelhe a um interrogatório é contraproducente. Mais vale demonstrar apoio dizendo claramente “Eu estou disponível para conversar, para te ouvir, e para te ajudar como puder”. Esse apoio incondicional é fundamental.
• NÃO DESISTIR À PRIMEIRA. Qualquer pai ou mãe sabe que pode ser muito difícil entrar no mundo de um adolescente. Quanto mais fazer com que ele(a) exteriorize as suas dores emocionais! É preciso ser persistente e carinhoso ao mesmo tempo, reforçando a vontade de ouvir ao mesmo tempo que se respeita o ritmo do jovem.
• SERMÃO, NÃO! É importante evitar qualquer crítica ou juízo de valor, assim que o adolescente começa a falar. Claro que pode ser tentador. Claro que alguns desabafos parecem merecer uma resposta imediata. Mas o importante é OUVIR. Se conseguiu que o “seu” adolescente começasse a comunicar consigo, não estrague tudo ao dar conselhos que não lhe foram pedidos.
• A SÉRIO. Para algumas pessoas, os desabafos de um adolescente parecem tão ridículos que o mais certo é não serem capazes de empatizar com a angústia descrita. Mesmo que alguns comentários possam parecer absurdos ou irracionais, é importante validar as emoções – reconhecer a dor e a tristeza. Se o adulto não for capaz de se descentrar dos seus próprios problemas e solidarizar-se com os sentimentos do adolescente, este sentir-se-á (legitimamente) incompreendido.

DEPRESSÃO (E SEUS MITOS)


J. K. Rowling, a autora da saga Harry Potter, assumiu recentemente que há alguns anos sofreu de depressão grave. Mais: na época, a escritora chegou a pensar em suicídio. O mundo reagiu com surpresa. Afinal, aquela que é hoje uma das mulheres mais ricas e influentes do mundo mostrou uma faceta de maior fragilidade e vulnerabilidade. “Nunca me envergonhei de ter sofrido uma depressão. Nunca. De que deveria envergonhar-me? Enfrentei uma etapa muito dura e estou orgulhosa de a ter superado”, afirmou.

Enquanto psicóloga, não posso deixar de aplaudir as declarações de Rowling – as suas palavras, em forma de testemunho, contêm um importante valor pedagógico, superior a qualquer palestra ministrada por um especialista em saúde mental. Psicólogos e psiquiatras de todo o mundo falam e escrevem diariamente sobre aquela que já foi denominada de “doença do século XXI”: relatam casos reais, dissecam os sinais e sintomas, desmistificam crenças irracionais, sempre na esperança de que quem os ouça possa sentir-se mais esclarecido e, porventura, ajudado. Mas estas palavras são, ainda, suficientes.

Apesar de constituir tema de capa em diversas publicações, e de andar sistematicamente nas bocas do mundo, a desinformação em relação à depressão, às suas causas e consequências, ainda impera. E desengane-se quem acha que essa desinformação é característica exclusiva das classes baixas. Não raras vezes ouço autênticos disparates vindos de pessoas formadas e, aparentemente, bem informadas.
Como o preconceito anda de mãos dadas com a ignorância e o desconhecimento, nunca é demais esclarecer, informar, desmistificar. Como podemos ajudar, ser solidários com um familiar ou amigo que sofra desta doença, se, ao mesmo tempo, alimentarmos mitos a seu respeito? Saliento apenas alguns:

MITO N.º 1: A DEPRESSÃO É UMA DOENÇA QUE AFECTA AS PESSOAS “FRACAS”. Nada poderia estar mais longe da verdade. Qualquer pessoa pode ser afectada. Repito: QUALQUER pessoa. A tristeza, a apatia e a falta de iniciativa são sintomas comuns a muitos doentes depressivos e, como qualquer sintoma, são consequências da própria doença. É precisamente por não quererem receber o rótulo de fracas que muitas pessoas sofrem em silêncio, em vez de pedirem ajuda. O desconhecimento, nestes casos, pode agudizar a situação.

MITO N.º 2: A DEPRESSÃO ATINGE, SOBRETUDO, AS MULHERES. Esta não é uma doença associada a um dos géneros, mas um dos corolários do primeiro mito é a diferença que existe na forma como a doença se manifesta em homens e mulheres. De um modo geral (há sempre excepções), as mulheres estão mais habituadas a expor as suas emoções e a diferença é ainda mais significativa no que diz respeito às emoções negativas, como a tristeza, pelo que, são elas que mais facilmente identificam a necessidade de recorrer à ajuda especializada. Muitos homens sentem dificuldades seríssimas em admitir que podem estar deprimidos. Reprimem as suas emoções, como se estas pudessem ser demonstrativas de frouxidão. O que acontece na generalidade dos casos? Em vez de apresentarem os sintomas “clássicos” de depressão, estas pessoas – mais homens do que mulheres – evidenciam sinais de ansiedade, aceleração cardíaca ou outros sintomas “físicos” com base nervosa. Aparecem muitas vezes nas urgências hospitalares, assustados com a possibilidade de estarem na iminência de sofrer um ataque cardíaco. Mas o episódio de pânico também pode ser um sinal de depressão.

MITO N.º 3: A DEPRESSÃO NÃO TEM CURA. Pode parecer estranho, mas a verdade é que quem confunde depressão com fraqueza, acaba por confundir uma doença com uma característica de personalidade. Ora, a depressão, como outras doenças, é tratável. Cada caso é um caso, é verdade, e nem todos os pacientes respondem da mesma forma às diferentes terapêuticas. Mas é fundamental que o doente depressivo seja ajudado. Tal como acontece com outras partes do nosso corpo, sempre que o nosso cérebro adoece, precisa de intervenção rápida. Quanto mais precoce for essa ajuda, mais célere será a recuperação.

MITO N.º 4: QUEM TOMA ANTIDEPRESSIVOS ACABA POR FICAR VICIADO. Os medicamentos são substâncias químicas prescritas por médicos especializados, designados para responder a situações específicas de doença. Os analgésicos, de venda livre, só devem ser tomados pontualmente e em doses controladas. Ainda assim, sabe-se que há o recurso abusivo a estes fármacos, com todas as consequências negativas que daí resultam para a nossa saúde. Ora, os antidepressivos também só devem ser tomados sob regras específicas. Um dos critérios para o uso destes medicamentos é o acompanhamento médico - não basta pegar num molho de receituários e ir aviando em função dos ciclos de humor! E muito menos se espera que o desmame possa ser feito por iniciativa própria. Cabe ao médico que os prescreveu acompanhar o doente nesta fase, indicando-lhe a melhor forma de largar a medicação – nalguns casos, o processo é muito gradual, para que não haja recidivas.
Como se sabe, os psicólogos não prescrevem qualquer medicamento. Contudo, não posso deixar de referir que a desvalorização desta terapêutica equivale a renegar a importância de um anti-pirético em doentes febris.
MITO N.º 5: A DEPRESSÃO É FRUTO DE UMA EXPERIÊNCIA EMOCIONALMENTE INTENSA OU TRAUMÁTICA. Como disse antes, a depressão tem muitas formas. Importa agora esclarecer que as causas que lhe são subjacentes também são variadas. Só numa parte dos casos é que a depressão pode ser considerada reactiva, ou seja, uma resposta do nosso organismo a um episódio difícil, como uma perda, desilusão ou atribulação. A depressão pós-parto é outra forma conhecida da doença, nem sempre identificada: algumas mulheres desenvolvem esta perturbação e, pelo embaraço de pedirem ajuda no período em que se espera que estejam mais felizes do que nunca, acabam por prolongar o sofrimento durante meses ou anos. Quantas famílias conhecem os efeitos devastadores desta forma da doença! Mas existem muitos casos em que a depressão surge sem aviso prévio ou qualquer episódio que lhe possa ser associado. Mais uma vez, o desconhecimento pode ser inimigo do doente: como não consegue atribuir uma causa aos sintomas, a própria pessoa pode viver em negação durante algum tempo, adiando o pedido de ajuda.

Volto, então, às palavras de J. K. Rowling. De que deveria envergonhar-se? De nada, claro. Adoeceu, viveu tempos difíceis, recorreu à ajuda da sua médica de família e foi encaminhada para técnicos especializados, recebendo o tratamento adequado à sua situação. Afinal, não é isso é que é exigível em todas as situações de doença? Por que hão-de as doenças do foro mental, e a depressão em particular, ser alvo de discriminação?

Numa altura em que os meios de comunicação se interessam tanto pelos escândalos que envolvem as figuras mediáticas, importa dar a esta entrevista a importância que verdadeiramente tem. No mínimo, porque os casos de alcoolismo, consumo de drogas e tentativas de suicídio que se conhecem das celebridades são comuns a muitos anónimos e resultam também, em muitos casos, de dificuldades pessoais ou relacionais em que não houve intervenção precoce.

DEPRESSÃO REACTIVA




Dou hoje sequência ao ciclo de textos sobre a depressão. Depois de uma primeira abordagem ao tema, optei por expor aqui aquela que é, provavelmente, a forma mais conhecida da doença, ainda que a generalidade das pessoas não esteja familiarizada com o termo técnico.

Tal como acontece noutro tipo de patologias, a depressão é uma doença que se pode manifestar de diferentes modos, pode envolver riscos maiores ou menores e está associada a factores endógenos e exógenos. A depressão reactiva também pode ser classificada de depressão exógena, na medida em que constitui uma reacção a um estímulo externo. Pelo contrário, as depressões endógenas costumam surgir “sem causa aparente”, pelo que são (ainda) mais incompreensíveis aos olhos de quem está à volta do paciente deprimido.

O diagnóstico da depressão reactiva surge quando há uma RESPOSTA DESAJUSTADA a uma situação geradora de grande tensão emocional. Assim, a perda de um familiar, um divórcio, a instabilidade financeira, ou o aparecimento de uma doença grave são estímulos suficientemente intensos e capazes de estar na base da manifestação desta forma de depressão.

ATENÇÃO! Nem todas as pessoas expostas a este tipo de dramas sofrem de depressão. Cada uma das situações-estímulo identificadas atrás podem gerar respostas diferentes em pessoas diferentes. Por exemplo, a morte de um familiar próximo pode implicar reacções emocionais diferentes nos membros de uma família, sem que isso implique que as pessoas possam ser rotuladas de mais fortes ou mais fracas. Aquilo que diferencia a tristeza profunda (resposta ajustada à situação dramática) da depressão reactiva (resposta desajustada) é a intensidade e a duração dos sintomas.

Ainda que a tensão emocional provocada pelo episódio seja violenta, não é expectável que apareçam determinados sintomas, pelo que, quando isso acontece, é importante pedir ajuda. Entende-se por resposta desajustada uma reacção emocional intensa, compreensível (à luz dos acontecimentos vividos), mas desproporcional, quer no sentido qualitativo, quer no sentido quantitativo. Esta reacção pode incluir:

- INIBIÇÃO PSÍQUICA – A perda de prazer é, provavelmente, a consequência mais incompreensível da depressão, na medida em que afasta a pessoa deprimida de todos os seus focos de interesse. Assim, uma pessoa que até aí gostava de fazer desporto ou passear na praia deixará de ver nestas saídas algo de especial ou valorizável. A companhia dos amigos e todas as fontes de prazer parecem irrelevantes.

- ESTREITAMENTO DO CAMPO VIVENCIAL – A depressão conduz quase sempre o doente ao desinteresse em relação a actividades até aí facilmente concretizáveis. A desmotivação generaliza-se, impedindo-o de realizar tarefas simples e rotineiras. Nada parece fazer sentido e a energia escasseia.

- SOFRIMENTO MORAL – A pessoa tende a ver-se sistematicamente de forma negativa. A redução da auto-estima traduz-se em sentimentos de incompetência e de inferioridade. Indiferente aos comentários e à avaliação de quem está à sua volta, o paciente deprimido subvaloriza-se em todas as áreas da vida – deixa de olhar para si mesmo como um profissional competente, um familiar emocionalmente capaz, uma pessoa bonita ou válida. Por oposição, vê os outros como superiores a si.

Além disso, em muitos casos a tensão emocional manifesta-se através de alterações repentinas de apetite e peso corporal, sentimentos de culpa, dificuldades de concentração, perturbações do sono, planos e tentativas de suicídio. A apatia e a ansiedade passam a ser uma constante (ao contrário do que acontecia antes), implicando grandes constrangimentos no dia-a-dia.

Esta resposta desajustada a um evento traumático requer, ao contrário da simples tristeza, uma intervenção especializada, que pode passar pela combinação da psicoterapia com a terapêutica farmacológica.

DEPRESSÃO ATÍPICA



Quando ouvimos falar de depressão, lembramo-nos quase imediatamente dos sintomas clássicos (desinteresse generalizado, apatia, tristeza, falta de energia…). No entanto, nalguns casos, a depressão manifesta-se de forma atípica, o que pode dificultar o diagnóstico. Antes de mais, é a própria pessoa que demora a pedir ajuda, pois não é capaz de associar os sintomas à doença.
As formas mais conhecidas desta perturbação são a depressão reactiva e a depressão pós-parto. Quase todas as pessoas estão familiarizadas com estes conceitos – é relativamente fácil perceber que uma percentagem considerável da população possa desenvolver uma depressão em resposta a um acontecimento emocionalmente intenso; além disso, são cada vez mais revelados casos de depressão em mulheres que acabaram de ser mães.
Contudo, muitas pessoas têm dificuldade em perceber que, tal como acontece com outras partes do nosso corpo, o nosso cérebro possa adoecer, sem que tenhamos vivido um acontecimento traumático recente. Assim, quando a depressão surge aparentemente sem motivo, a própria pessoa pode desvalorizar os sintomas. Na tentativa de manterem o auto-controlo e evitarem parecer “frágeis” ou “fracas”, algumas pessoas acabam por desenvolver uma depressão atípica.
Aquilo que mais mascara a depressão é o facto de, nestes casos, haver uma melhoria do humor em resposta a eventos positivos. É provável que a pessoa se sinta “bem” se receber uma boa notícia, ou até numa saída com amigos. No entanto, esta elevação é passageira. Este sintoma é, aliás, o mais frequente nos casos de depressão atípica.
Os outros sintomas incluem:
  • Ansiedade generalizada;
  • Aumento de peso;
  • Necessidade excessiva de dormir;
  • Hipersensibilidade à rejeição.

O que é Depressão





DEPRESSÃO
Autoria: Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva


O que é Depressão?

A depressão não é apenas uma sensação de tristeza, de fraqueza ou de "baixo astral". É muito mais do que se sentir triste ou ficar de luto após uma perda, por exemplo.

A depressão é uma doença de corpo como um todo (tanto como hipertensão arterial, a diabetes ou as doenças cardíacas) que afeta o humor, os pensamentos, a saúde e o comportamento.

Estima-se que 10% da população mundial sofram de uma doença depressiva em algum período de sua vida.


O quadro clínico da depressão pode apresentar os seguintes sintomas:


 Tristeza persistente, ansiedade ou sensação de vazio;
 Sentimentos de culpa, inutilidade e desamparo;
 Insônia terminal (ocorre o despertar 3 a 4 horas da manhã) ou excesso de sono;
 Perda de apetite e do peso, ou aumento do apetite e ganho de peso;
 Fadiga e sensação de desânimo;
 Irritabilidade e inquietação;
 Dificuldade para concentrar-se e recordar;
 Dificuldades em tomar decisões;
 Sentimentos de desesperança e pessimismo;
 Ideias ou tentativas de suicídio;
 Dores crônicas que não correspondem aos tratamentos convencionais;
 Perda de interesses por atividades que anteriormente despertavam prazer, incluindo-se atividades profissionais, sexuais ou mesmo lazer.


Por que a Depressão ocorre?


A depressão é consequência de um desequilíbrio de substâncias cerebrais chamadas neurotransmissores, que são fundamentais na regulação do humor.

Em algumas famílias a depressão costuma ocorrer de geração em geração. Entretanto, pode, por vezes, manifestar-se em indivíduos que não possuem história de depressão familiar. Herdada ou não, a depressão maior está associada à redução ou ao excesso de certas substâncias neuroquímicas (neurotransmissores).

A personalidade (constituição psicológica) também desempenha papel na vulnerabilidade à depressão. Pessoas com baixa autoestima que se vêem sistematicamente com pessimismo, ou que se deixam facilmente abater pelo estresse, são mais predispostas à depressão. Fatores externos (ambientais) como dificuldades financeiras, doença crônica, ou qualquer alteração indesejada na vida também podem desencadear um episódio depressivo.

Assim, conclui-se que, com frequência, a combinação de fatores genéticos, psicológicos e ambientais está presente no aparecimento da doença depressiva.


Existe tratamento para Depressão?

Mais de 85% das pessoas que sofrem de depressão podem ser ajudadas através de tratamentos adequados. Quando bem aplicados, eles reduzem a dor, o sofrimento e eliminam os sintomas causados pela depressão, permitindo que o paciente volte à vida normal. A precocidade do tratamento é fundamental para o sucesso terapêutico.

Existem vários tratamentos disponíveis para a depressão. Os mais adequados deles deverão dar conta de todos os fatores envolvidos no desenvolvimento do problema. Assim, o primeiro passo de qualquer tratamento será o restabelecimento do equilíbrio bioquímico dos neurotransmissores cerebrais envolvidos na regulação do humor. Para este aspecto faz-se necessário o uso de medicamentos que possam fazer o restabelecimento deste equilíbrio.

O segundo e talvez o mais importante passo no sucesso do tratamento a longo prazo, trata-se de uma abordagem psicoterápica que conscientize o paciente sobre a necessidade de reestruturar sua maneira de viver e principalmente de lidar com os problemas de maneira menos desgastantes.

O terceiro passo visa introduzir na vida do paciente hábitos e/ou técnicas que fazem o equilíbrio físico e mental tais como a ioga, meditação, prática de exercícios físicos, técnicas de relaxamento e alimentação mais saudável, rica em substâncias que ajudem na manutenção do equilíbrio do corpo.

Um tratamento que cumpra todas essas etapas tem por objetivo não somente o restabelecimento do quadro depressivo, mas principalmente a conquista de uma melhor qualidade de vida.


A ajuda de amigos e parentes é importante?

A ajuda de parentes e amigos é fundamental para o paciente com depressão, uma vez que o desânimo e a desesperança, muitas vezes, o impedem de procurar ajuda especializada. Desta forma, a coisa mais importante que alguém pode fazer por uma pessoa deprimida é ajudá-la a se submeter a um diagnóstico e a um tratamento adequado. Outro aspecto muito útil é reafirmar para o paciente que com o tempo e ajuda ele se sentirá bem melhor. 




Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva


Médica graduada pela UERJ com pós-graduação em psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora Honoris Causa pela UniFMU (SP) e Presidente da AEDDA – Associação dos Estudos do Distúrbio do Déficit de Atenção (SP). Diretora técnica das clínicas Medicina do Comportamento do Rio de Janeiro e em São Paulo, onde faz atendimento aos pacientes e supervisão dos profissionais de sua equipe. Escritora, realiza palestras, conferências, consultorias e entrevistas nos diversos meios de comunicação, sobre variados temas do comportamento humano.

Livros Publicados:
 Mentes Inquietas - TDAH: Desatenção, hiperatividade e impulsividade [Publicação revista e ampliada]
 Mentes e Manias: TOC: Transtorno Obsessivo-compulsivo [Publicação revista e ampliada]
 Sorria, você está sendo filmado (em parceria com o publicitário Eduardo Mello)
 Mentes Inquietas: Compreender o distúrbio do défice de atenção (DDA) // Editado em Portugal
 Mentes Insaciáveis: Anorexia, bulimia e compulsão alimentar
 Mentes Ansiosas: Medo e ansiedade além dos limites [Publicação revista e ampliada de Mentes com Medo]
 Mentes Perigosas: O psicopata mora ao lado
 Bullying: Mentes perigosas nas escolas
 Mentes Peligrosas: Un psicópata vive al lado // Editado na Argentina
 Mentes Peligrosas: Un psicópata vive al lado // Editado no México
 Mundo Singular: Entenda o autismo

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