Cinco Votos para Obter Poder Espiritual.

Primeiro - Trate Seriamente com o Pecado. Segundo - Não Seja Dono de Coisa Alguma. Terceiro - Nunca se Defenda. Quarto - Nunca Passe Adiante Algo que Prejudique Alguém. Quinto - Nunca Aceite Qualquer Glória. A.W. Tozer

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O cinco pontos do calvinismo, por um calvinista

 

Introdução

Em 1618, um sínodo eclesiástico reuniu-se em Dort, na Holanda, para definir os pontos principais da igreja reformada no tocante à doutrina bíblica acerca da salvação. Isso ocorreu devido a certas novidades teológicas, propostas por Jacó Armínio, que estavam tumultuando o contexto reformado e afastando alguns do ensino paulino defendido desde os dias da Reforma Protestante.

Para deixar bem claro e definido o que a igreja reformada cria, ensinava e defendia, o Sínodo de Dort fixou cinco pontos que ficaram conhecidos como Os cinco pontos do calvinismo. São eles:
1. Depravação total
2. Eleição incondicional
3. Expiação limitada
4. Graça irresistível
5. Perseverança dos santos

Em inglês, as iniciais dessa lista formam o acróstico “TULIP”, o nome de uma flor (em português, tulipa). Por isso, a figura da tulipa ficou associada à fé calvinista e, de vez em quando, a gente vê imagens dessa flor em sites, artigos e livros que defendem a doutrina reformada.

A Igreja Batista Redenção é calvinista (pelo menos os pastores dela são). Não somos calvinistas no sentido técnico e pleno da palavra (pois não somos aliancistas), mas somos calvinistas na nossa soteriologia, adotando os pontos fixados em Dort. O fato de sermos calvinistas num contexto teológico tão humanista (que exalta o ser humano) e tão reducionista na sua visão de Deus cria certos problemas. Muita gente se opõe aos nossos ensinos, pervertendo-os, alegando que dizemos coisas que nunca dissemos, torcendo o significado de versículos que embasam nossa fé e até negando a validade e a inerrância da Bíblia nas partes que mostram que estamos no caminho certo.

Há, porém, pessoas que são realmente sinceras no seu desejo de conhecer a antiga fé dos reformadores. Muitos, lendo a Bíblia com o coração aberto, ficam impactados com as doutrinas que foram ensinadas não somente por Calvino — mas por Agostinho, Gotescalco, Tomás de Aquino, João Huss, Guilherme de Occam, John Wyclif, Martinho Lutero, Ulrico Zuínglio, John Owen, Jonathan Edwards, George Whitefield, Charles Spurgeon e Abraão Kuyper (para citar somente alguns) — e entram em contato conosco para fazer perguntas sobre a “tulipa”. É com o intuito de ajudar um pouco essas pessoas que escrevo este texto.

Antes, porém, de explicar o primeiro item destacado em Dort (a depravação total), quero mostrar o resumo de todos esses pontos feito por minha filha, a Helena, em seu testemunho de conversão. Ela preparou esse pequeno testemunho já faz algum tempo e eu o transcrevo aqui do jeitinho que ela escreveu, sem nenhum “tapinha” para ajeitar ou melhorar o texto. Acho que para uma menina de dezesseis anos que nunca estudou teologia (pelo menos não formalmente), ela captou muito bem a soteriologia bíblica defendida em Dort. Vejam:

Uma breve explicação por que me converti e por que sou Calvinista:

Eu era totalmente perdida no pecado, minha vida se resumia em tristeza e uma vida sem propósito e com muitas dúvidas. Minha natureza má e pecaminosa prevalecia em mim (Depravação total do homem).

Porém, por causa do amor de Deus por mim, ele me escolheu (Eleição incondicional). Fui tirada e salva do abismo que o pecado me deixou e colocada como serva de Cristo a partir do momento que entreguei minha vida a Ele. Mas só pude ter acesso a essa salvação porque Jesus, o filho de Deus, morreu para pagar os meus pecados, a morte dele foi para me comprar (Expiação limitada).

Reconheci que sou pecadora porque Deus trabalhou em meu coração e por meio da sua graça, ele me alcançou e me convenceu do pecado que havia em mim (Graça irresistível).

Agora vivo para ele e, mesmo entre ataques ou até mesmo perseguições, permaneço firme na fé, pois Deus me guarda (Perseverança dos Santos).
Helena Granconato | 2 de abril de 2015

Nas seções seguintes, quero expor as cinco tocantes verdades da Tulipa mencionadas pela Helena. Então, como ela, todos poderão entender melhor as maravilhosas dimensões da soteriologia bíblica e, com razões muito mais sólidas, louvar a Deus por sua imensa graça.

A depravação total

Os teólogos dizem que as cinco verdades da Tulipa estão interligadas, de forma que a segunda decorre da primeira; a terceira, decorre da segunda; e assim por diante. Eles estão certos. De fato, os cinco pontos fixados em Dort compõem um sistema unificado e interdependente. Se um ponto for aceito, será muito difícil se livrar dos demais.

É por isso que os oponentes da Tulipa fazem de tudo para desacreditar o primeiro ponto de Dort, A depravação total. De acordo com esse ponto, o pecado afetou a totalidade da natureza humana, cada aspecto dela, não havendo nada que o homem, de si mesmo, consiga fazer para obter o favor divino.

Calvino disse que “todos os homens são concebidos em pecado e nascem como filhos da ira, indispostos a qualquer bem salvífico, com propensão para o mal, mortos no pecado e escravos da iniquidade; e, sem a graça regeneradora do Espírito Santo, eles não querem nem são capazes de se voltar para Deus, de corrigir sua natureza depravada ou mesmo de se disporem a isso”.

A base bíblica para essa doutrina é ampla: Gênesis 6.5; Salmos 51.5; Jeremias 17.9; João 8.43; 15.4,5; Romanos 3.10-18; 1Coríntios 1.18; 2.14; 12.3; 2Coríntios 3.14-16; Efésios 2.1-3; 4.17-18, etc. É por causa desse grau de depravação que o homem depende da iniciativa de Deus para ser salvo (Mt 11.27; Jo 1.13; 6.37,44,65; At 16.14).

Conforme dito, os que se insurgem contra a soteriologia reformada sabem que, se a doutrina da depravação total for acolhida, todo o sistema também terá de ser aceito. Por outro lado, se esse ponto for destruído, todo o edifício da soteriologia reformada ruirá.

No meio evangélico, os maiores inimigos da Tulipa são chamados arminianos, uma designação que vem de Jacó Armínio, teólogo que se insurgiu contra alguns elementos da doutrina ensinada pela igreja reformada da Holanda. No Brasil, o arminianismo não reflete com precisão as ideias de Armínio. Na verdade, a maior parte dos arminianos que conhecemos se define assim somente porque não se simpatiza com a doutrina bíblica da eleição. A maioria deles nunca leu nada sobre Armínio, nem jamais compreendeu a totalidade da sua doutrina. O que fazem é apenas adotar o título “arminiano” de forma intuitiva, como se fosse uma palavra que significa “alguém que não acredita na predestinação”.

Isso torna o arminianismo brasileiro uma espécie de pelagianismo (doutrina que prega a salvação à parte da ação graciosa de Deus), mesclado com ideias liberais (como a negação da inerrância bíblica especialmente nas partes em que a Escritura fala do controle absoluto de Deus sobre todas as coisas), marcado por extremado humanismo (a vontade humana é livre e soberana, capaz de gerar fé salvífica) e por um conceito reducionista de Deus (Deus abriu mão de sua soberania por “respeito” ao homem. Muitos arminianos dizem que Deus também abriu mão de sua presciência!).

Se Armínio soubesse o que hoje pregam em nome dele, certamente se reviraria em seu túmulo. Tendo formação calvinista, ele rejeitava frontalmente o pelagianismo pregado hoje em dia sob a capa do seu nome. Prova disso, é que ele aceitava a primeira verdade da Tulipa, a depravação total. Ele cria, assim, que o ser humano, em si mesmo, é alguém totalmente destituído de qualquer capacidade de buscar a Deus. Armínio escreveu em sua Declaração de sentimentos:

Em seu estado pecaminoso e caído, o homem não é capaz de, e por si mesmo, quer seja pensar, querer ou fazer o que é, de fato, bom; mas é necessário que seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade e em todas as suas atribuições, por Deus, em Cristo, através do Espírito Santo, para que seja capaz de corretamente compreender, estimar, considerar, desejar e realizar o que quer que seja verdadeiramente bom.

O problema de Armínio estava na solução que dava para esse problema. Ele propôs um novo conceito da “graça preveniente”, dizendo que, por ela, todo o ser humano tem seu livre arbítrio restaurado, podendo então aceitar Cristo por decisão própria, sem a necessidade da graça especial irresistível (quarto ponto da Tulipa). É impossível achar na Bíblia esse conceito de “graça preveniente” ou “graça capacitadora” dada a todo ser humano. Aliás, na Bíblia se encontra exatamente o oposto disso, ou seja, Deus endurecendo ainda mais o coração de muitas pessoas para que não creiam (Êx 9.12; Is 6.10; 63.17; Rm 9.18; 11.7 2Ts 2.11).

Bom, em termos práticos quais são os efeitos de se aceitar ou não a doutrina da depravação total? Pessoalmente, eu acredito que isso cause impacto no campo da devoção pessoal, no campo da realização ministerial e no campo da liturgia. Eu explico: no campo da devoção pessoal, o crente que entende a doutrina da depravação total se torna mais humilde e grato por sua salvação, entendendo melhor o quanto Deus foi gracioso com ele. Ele será incapaz de se orgulhar por ter “aceitado a Cristo”, sabendo que era incapaz de qualquer coisa e que, se um dia creu, isso foi graças ao grande poder e graça do Salvador.

No campo da realização ministerial, o ministro terá descanso. Ele saberá que as conversões não dependem de sua retórica ou talento e, por isso, não cansará as pessoas com apelos infindáveis para que “tomem uma decisão”. Também não se orgulhará quando conduzir pessoas a Cristo. Antes, saberá que todos os frutos que vê em seu ministério são obra de Deus e que, considerando a depravação do homem, ninguém daria atenção às suas pregações se o Senhor não atuasse de modo poderoso nos ouvintes.

Finalmente, no campo litúrgico, a igreja que entender a doutrina da depravação total não investirá em projetos de “multiplicação” adotando estratégias de marketing barato (festas, diversão, atrações artísticas) para “conquistar almas”, fazendo de tudo para convencê-las a usar o “livre-arbítrio” e crer. Antes, dará mais valor à pregação e à súplica, sabendo que só pelo poder de Deus a dureza humana pode ser rompida.

A eleição incondicional

Conforme dito anteriormente, as cinco verdades da Tulipa estão interligadas de forma que, se você rejeitar a primeira, terá de rejeitar a segunda, e assim por diante. Pois bem, até o século 18, seria muito difícil encontrar um protestante que negasse o primeiro ponto da fé reformada, ou seja, a depravação total. Todos os reformadores tinham ensinado que o pecado havia afetado gravemente cada faculdade humana e os crentes viam isso claramente nas Escrituras. Consequentemente, a grande maioria dos crentes desde a época da Reforma (século 16) também aceitava a eleição incondicional, pois, se o homem era incapaz de se mover na direção de Deus, então a única saída era Deus tomar a iniciativa e se mover na direção do homem, quebrando seu coração endurecido. Por que Deus fazia isso somente com alguns e não com todos? A resposta estava mais uma vez na Bíblia: Deus tinha seus eleitos!

Ocorreu, porém, que os avanços científicos e tecnológicos dos séculos 18 e 19 criaram um ambiente intensamente otimista em relação ao homem e também fortemente cético em relação aos dogmas da Bíblia. Nesse contexto, várias doutrinas consagradas da fé cristã foram negadas — inclusive por pastores e teólogos (os chamados teólogos liberais). Entre essas, uma que foi totalmente repudiada foi a doutrina do pecado original, a qual destacava a realidade da depravação total. Rejeitando essa doutrina, as igrejas passaram a ver o pecador como alguém capaz de tudo, inclusive de, por si mesmo, produzir a fé salvífica no próprio coração, bastando apenas que decidisse fazê-lo. É claro que, rejeitando a depravação total, os crentes, a partir de então, rejeitaram também a doutrina da eleição, ou a reinterpretaram de forma que preservassem seu conceito positivo do homem.

A partir daí, muitas pessoas viram nas ideias de Armínio uma opção atraente. Seu conceito de um livre-arbítrio resgatado pela “graça preveniente” e suas ideias de uma eleição baseada naquilo que Deus antevê no homem se encaixavam melhor dentro do ambiente humanista que passou a reinar.

É por causa de todo esse processo iniciado no século 18 — um processo racionalista/humanista — que grande parte das igrejas evangélicas de hoje é liberal ou arminiana. Aliás, muitos liberais são também arminianos (são os arminianos da mente, em contraste com os arminianos do coração), dizendo que o homem tem as faculdades livres (ênfase arminiana) e negando a depravação total como uma ideia decorrente do “mito” da Queda (ênfase liberal).

Conforme já foi destacado, sem a doutrina da depravação total, a verdade da eleição incondicional cai por terra. No modelo arminiano, o homem, tendo as faculdades livres dos efeitos do pecado pela ação da “graça preveniente”, é capaz de ele próprio eleger Deus. No fim das contas, a eleição deixa de ser um ato divino em favor do homem e passa a ser um ato humano em favor de Deus! Sem a doutrina da depravação total nasce a doutrina da inversão total!

A verdade, porém, é que não existe nenhuma graça preveniente livrando todas as pessoas das limitações impostas pelo pecado, como Armínio acreditava. O coração humano permanece corrupto e está morto para as coisas de Deus, sendo incapaz de buscá-lo, amá-lo ou desejá-lo. Para que isso mude, é necessária a ação sobrenatural da graça de Deus. E essa graça não atua sobre todos como pensam os arminianos. Atua somente nos eleitos. Estes foram escolhidos sem que Deus visse neles mérito algum (por isso, a eleição é chamada “incondicional”), tudo com base apenas na “determinação e graça” (2Tm 1.9) “daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).

Essa doutrina tem um vasto fundamento bíblico. Jesus afirmou que tinha um povo disperso que lhe pertencia e que ele reuniria esse povo, chamando cada integrante dele pelo nome (Mt 24.31; Jo 10.3,16; Jo 11.51-52). Ele disse ainda que esses escolhidos eram poucos (Mt 22.14), mas que eles seriam preservados e protegidos do engano (Mt 24.22,24) e que Deus um dia faria justiça a eles (Lc 18.7).

O livro de Atos também fala sobre os eleitos dizendo que Deus tinha pessoas que lhe pertenciam nas cidades gentílicas e que essas pessoas ouviriam a pregação dos apóstolos (At 18.9-10). Em Atos é dito ainda que os que criam no evangelho eram pessoas que tinham sido destinadas para a vida eterna (At 13.48).

Paulo é quem mais escreve sobre a doutrina da eleição (Rm 8.29-30; Ef 1.4-5,11), dizendo que essa doutrina realça a soberania de um Deus que tem autoridade de fazer o que quiser com quem quiser (Rm 9.14-18), não tendo o homem o direito de questionar suas ações (Rm 9.19-21). Paulo diz ainda que é graças à eleição que Deus preserva um remanescente fiel a ele (Rm 11.1-5) e que esses escolhidos não podem ser alvos de nenhuma acusação (Rm 8.33). Segundo o apóstolo, a fé salvadora pertence somente aos eleitos (1Ts 1.4-6; Tt 1.1), sendo certo que Deus incluiu no número de escolhidos muitas pessoas simples a fim de humilhar a ilusória grandeza do mundo e ninguém se gloriar diante dele (1Co 1.27-29. Ver tb. Tg 2.5).

Todas essas evidências tornam inegável a eleição de Deus e os crentes não devem se insurgir contra ela, como faz a corrompida igreja atual. Em vez disso, o cristão deve se curvar em gratidão, sabendo que foi salvo não por ter percepções espirituais melhores, mas porque Deus, sem ver nele atrativo algum, o escolheu soberanamente.

Muitos arminianos tentam se livrar da doutrina da eleição incondicional, afirmando a eleição condicional. Eles dizem que a eleição é uma realidade bíblica, mas que está condicionada à previsão da fé. Trocando em miúdos: Deus elegeu sim, mas ele fez isso porque previu de antemão a fé de alguns. Essa ideia tenta buscar fundamentos na expressão “os que de antemão conheceu”, presente em Romanos 8.29. Essa frase, porém, não significa “aqueles em quem Deus anteviu a fé”, mas sim “aqueles a quem Deus decidiu de antemão mostrar seu favor” (veja o mesmo sentido em Rm 11.2). Note ainda que, de acordo com 1Pedro 1.20, conhecer de antemão não é somente saber o que vai acontecer, mas sim saber o que foi decretado que vai acontecer.

Outro texto que os arminianos usam na defesa da eleição condicional é 1Pedro 1.2, que diz que os crentes foram eleitos “segundo a presciência de Deus”. Contudo, a preposição grega usada nesse versículo (katá) não permite o entendimento de que as pessoas foram eleitas por causa da presciência de Deus, mas sim que Deus, de conformidade com sua presciência, sabia desde o início a quem iria salvar.

Tudo isso realça o antigo princípio paulino de que a eleição teve como causa “aquele que chama” (Rm 9.11) e não aqueles que são chamados, destacando fortemente que o decreto eletivo do Senhor se fundamentou unicamente no “beneplácito de sua vontade” (Ef 1.5,11) e não em virtudes que porventura tenha antevisto em alguns. Isso também destaca a gratuidade completa da eleição, pois mostra que ela não foi uma retribuição pelo bem que Deus supostamente viu de antemão no eleito (o que ele, de fato, anteviu no eleito foi somente pecado e morte) e sim um ato de graça pura, verdadeiro favor imerecido.

A expiação limitada

A verdade da eleição incondicional conduz forçosamente à terceira “pétala” da Tulipa: A expiação limitada. A pergunta central ligada a esse ponto é a seguinte: se Deus tem seus eleitos, por quem então Cristo morreu? A resposta rápida e certeira é: pelos eleitos, é claro! No entanto, mesmo sendo isso tão óbvio, a terceira verdade da flor é a que mais tem causado divisões e conflitos até mesmo entre os teólogos reformados. Entre estes há muitos que afirmam a expiação ilimitada, posição também conhecida como universalismo hipotético. De acordo com essa concepção, Cristo morreu em benefício e em lugar de todos os indivíduos, mas sua morte só tem eficácia para os eleitos.

Os universalistas hipotéticos (ou calvinistas de quatro pontos) ensinam que Deus decretou que a expiação de Cristo fosse feita em favor de cada ser humano independente de crerem ou não, mas visto que ninguém tinha capacidade de crer (depravação total), Deus escolheu aqueles que iria salvar (eleição incondicional). Assim, a expiação permanece eficiente e suficiente para todos, mas eficaz somente para os eleitos.

O universalismo hipotético ganhou destaque graças ao trabalho de Moisés Amyraut (1596-1664), da Academia de Saumur, na França. Por isso, essa posição teológica é também chamada de amiraldismo ou amiraldianismo.

Ainda que pareça atraente à primeira vista, o calvinismo de quatro pontos esbarra em diversos problemas. Em primeiro lugar, o próprio Jesus disse que daria a sua vida “pelas ovelhas” (Jo 10.11,15). Disse ainda que muitas dessas ovelhas por quem ele morreria estavam espalhadas fora do aprisco de Israel, mas que elas afinal creriam nele e ele as agregaria (Jo 10.16). Depois, voltou-se para os judeus que o afrontavam e disse: “Vós não sois das minhas ovelhas”, excluindo-os desse grupo por quem ele morreria e um dia chamaria para si (Jo 10.26).

Jesus também disse que daria a sua vida em resgate de muitos (Mc 10.45) e, ao instituir a Ceia, repetiu essa verdade, declarando que o sangue da Nova Aliança seria derramado em favor de muitos, limitando o alvo de sua obra (Mt 26.28).

João, em seu evangelho, ao fazer alusão ao objetivo da morte de Cristo, disse que ele morreria para reunir “os filhos de Deus que andam dispersos” (Jo 11.51-52), ou seja, pelo bem de um grupo específico que estava espalhado pelo mundo e que ainda não tinha sido alcançado (Tt 2.14).

Paulo, por sua vez, quando falou aos presbíteros de Éfeso, disse que o sangue de Cristo serviu para comprar a igreja (At 20.28). Quando mais tarde escreveu à mesma igreja de Éfeso, o apóstolo realçou novamente que Cristo se entregou pela igreja (Ef 5.25). O Apocalipse aponta na mesma direção, dizendo que por sua morte Cristo não comprou todo mundo, mas sim certas pessoas espalhadas pelo mundo todo (Ap 5.9).

Outra questão que deve ser levada em conta é que a morte de Cristo teve um efeito retroativo, beneficiando pessoas do Antigo Testamento (AT), ou seja, indivíduos que já haviam morrido, como Abraão, Moisés e Davi, por exemplo (Rm 3.25; Hb 9.15). Assim, se Cristo morreu em lugar de cada ser humano, então ele morreu inclusive por pessoas do AT que já estavam no inferno — gente como Faraó, Jezabel e os inimigos de Daniel. Ora, que sentido haveria em Cristo dar a sua vida pelos pecados de pessoas irremediavelmente perdidas? Morrer pagando pela redenção do profeta Isaías faz sentido, mas morrer em favor dos homens de Sodoma teria algum propósito?

A doutrina da expiação limitada também tem de lidar com certas dificuldades oriundas de algumas passagens bíblicas. Por isso, na próxima seção, vamos dedicar umas poucas linhas para resolver essas questões.

Dificuldades

Os arminianos e os calvinistas de quatro pontos dizem que a doutrina da expiação limitada esbarra em textos bíblicos que dizem que Cristo morreu por todos ou pelo mundo inteiro. Alguns exemplos desses textos (com breves explicações calvinistas) são os seguintes:

2Coríntios 5.15 — Esse versículo diz que Cristo “morreu por todos”, sendo essa a base para o desafio de viver para ele. Os universalistas hipotéticos entendem que aqui a palavra “todos” se aplica a cada ser humano. No entanto, uma leitura mais ampla e atenta revelará que nesse texto o vocábulo “todos” se refere a todos os crentes. Essa palavra aparece também no v.14 (“todos morreram”), onde esse é o único sentido possível.

1Timóteo 2.6 — Nessa passagem, há o registro da frase que diz que Cristo se entregou “como resgate por todos”. Mais uma vez, os oponentes da teologia reformada entendem que aqui é ensinada a expiação ilimitada. Contudo, nessa passagem a palavra “todos” se refere a todos os tipos de pessoas — servos e senhores, ricos e pobres, judeus e gentios, etc. (veja os vv.1-2, onde somente esse sentido é possível).

De fato, a análise do contexto histórico dessa passagem mostra que Paulo estava muito preocupado em quebrar a ideia proposta pelo gnosticismo incipiente da época de que somente uma elite de homens tinha privilégios espirituais (1Tm 1.3-7). Daí sua afirmação de que Cristo morreu por todos os tipos de pessoas, anulando as distinções ensinadas pelos hereges (veja tb. Tt 2.11, onde o sentido é o mesmo. Aliás, logo a seguir, nessa passagem, o v.14 mostra o alvo limitado da expiação).

Hebreus 2.9 — Esse texto afirma que Jesus provou a morte “em favor de todos”. Será que isso comprova a doutrina da expiação ilimitada? É claro que não. Aqui a palavra “todos” se refere a judeus e gentios. Deve ser lembrado que a carta em questão foi escrita para cristãos judeus. Ora, no século 1 havia entre esses crentes a tendência a crer que somente pessoas da nação israelita seriam beneficiadas pela obra do Messias. Os cristãos hebreus não assimilaram de pronto a ideia de que o Cristo tinha vindo em benefício de todos os povos. Por isso, era necessária a afirmação de que o Messias havia morrido por todos (judeus e gentios), no afã de enfraquecer a noção de exclusivismo soteriológico israelita.

Ademais, nesse ponto é preciso lembrar que, na Bíblia, nem sempre é possível que a expressão “todo homem” e similares signifique cada indivíduo que vive no mundo. Veja, por exemplo, João 12.32, 1Coríntios 15.22 e Colossenses 1.28. Em todas essas passagens, as expressões “todos” e “todo homem” têm um sentido limitado. Isso é muito óbvio!

2Pedro 3.9 — Segundo os arminianos, esse versículo ensina que Deus não quer que ninguém pereça. Logo, dizem, não existe eleição incondicional e Cristo só pode ter morrido por todos. No entanto, nessa passagem, Pedro fala do anseio do Senhor em relação aos crentes e não em relação a todos os seres humanos (observe o uso de “convosco”). Ocorre que, naqueles dias, os cristãos estavam se deixando influenciar pelo ensino de falsos mestres (ver 2Pe 2.1-22; 3.16) e isso os levaria a sofrer algum tipo de dano, caso fossem surpreendidos nessa condição por ocasião da vinda do Senhor (1Co 3.13-15; 1Jo 2.28). Por isso, Pedro alerta os cristãos, dizendo que o Senhor tardava sua vinda a fim de que eles se arrependessem, pois não queria que nenhum deles provasse qualquer tipo de castigo paterno (3.14). Aliás, é bom destacar que o termo usado por Pedro e traduzido como “pereça” (ARA) é apóllymi, que não implica necessariamente perdição eterna, mas qualquer forma de ruína, perda, dano ou prejuízo (veja Rm 14.15).

Além desses textos, existem aqueles que pertencem aos escritos joaninos (Evangelho de João; 1,2,3 João e Apocalipse). Nesses livros, os versículos mais citados contra a expiação limitada são João 3.16 e 1João 2.2. Os arminianos e os calvinistas de quatro pontos entendem que, nesses dois trechos, a palavra “mundo” significa cada ser humano que há na Terra e acreditam, com isso, derrubar a terceira pétala da Tulipa.

Contudo, nos escritos joaninos há vários textos que provam que o vocábulo “mundo” nem sempre (talvez nunca) pode significar cada indivíduo do planeta. Veja, por exemplo João 1.29; 6.33 e 16.8. Se nesses trechos o termo “mundo” abranger cada pessoa, então cairemos no universalismo, afirmando que todos os homens estão salvos, o que é um grande desvio doutrinário. Considere ainda 1João 5.19. Note que nessa passagem, o termo “mundo inteiro” está restrito em sua aplicação apenas aos incrédulos, sendo excluídos os salvos.

Como, então, deve ser interpretada a palavra “mundo” em João 3.16 e 1João 2.2? Nos escritos joaninos só existe um versículo que revela como o termo “mundo” deve ser entendido em textos como esses. Trata-se de Apocalipse 5.9. Esse é o único texto que mostra o que João tinha em mente quando dizia que Deus amou o mundo ou que Cristo é a propiciação pelos pecados do mundo. De fato, Apocalipse 5.9 indica que quando João falava assim, ele não pensava em cada indivíduo que vive aqui, mas sim em homens espalhados por “toda tribo, povo, língua e nação”.

Assim, quando a boa teologia afirma que Cristo se entregou pelo mundo, isso significa que ele morreu por homens que vivem no mundo todo e não por todos os homens que vivem no mundo. Percebeu a diferença? Foi por isso que Jesus disse que derramou o seu sangue em favor de “muitos” (e não todos — Mc 10.45; 14.24).

A graça irresistível

De todas as pétalas da Tulipa, essa é a que eu acho a mais notável e bonita. Trata-se do ponto da teologia reformada que mais mexe com a nossa memória, fazendo-nos lembrar daquele dia maravilhoso em que o Senhor nos chamou doce e mansamente pelo nosso próprio nome e, rompendo a dureza do nosso coração, nos atraiu para si (Jo 10.2-3).

Mesmo, porém, envolvendo realidades tão ricas e belas, a quarta pétala da nossa flor não fica livre dos ataques da teologia humanista que reina no meio evangélico. Por isso, antes de tudo, é preciso destacar o que a graça irresistível não é.

Em primeiro lugar, a graça irresistível não é uma violência contra a personalidade ou, mais especificamente, contra a vontade humana (já vi arminianos dizendo que a doutrina da graça irresistível ensina uma forma de estupro espiritual)! Outros dizem que ela transforma os salvos em marionetes. Para mim, essas afirmações beiram a blasfêmia). É claro que Deus não tem obrigação nenhuma de “respeitar” a vontade humana e ele, muitas vezes sendo o Senhor soberano, a “atropela” (os arminianos usam esse termo para criticar os calvinistas), sem que isso em nada diminua ou detrate a grandeza de seu caráter (veja, por exemplo, a história de Jonas, em que a vontade do profeta de ir para Társis foi “atropelada” por Deus. Veja tb. Is 43.13 e Dn 4.35).

Na maior parte das vezes, porém, não é assim que age a graça irresistível. Essa graça, constantemente, atua por meio do convencimento lento e paciente, algo que se processa frequentemente ao longo de anos — anos em que o Senhor busca o seu eleito em diferentes ocasiões, fala com ele aos poucos (por muitas e variadas formas), trabalha lentamente em seu coração e o persuade, enfim, a segui-lo.

Obviamente, há casos em que Deus age com vigor maior (veja como foi com Paulo, em At 9.3-5), mas mesmo nessas ocasiões, o Senhor atua na vontade humana, fazendo com que a pessoa creia nele e queira segui-lo. O fato é que ninguém se torna discípulo de Jesus “pela orelha”. Todas as suas ovelhas quiseram e querem segui-lo. A questão não é essa. A questão é como, estando espiritualmente mortas (depravação total), essas pessoas desejaram um dia segui-lo. E a resposta é simples: a graça irresistível de Deus atuou nelas.

Em segundo lugar, a graça irresistível não é do tipo que nunca é resistida. Já vi arminianos dizerem absurdos do tipo: “Eu não creio na doutrina da graça irresistível porque eu mesmo resisti muito tempo antes de crer”. A pessoa que diz isso prova o que todos os calvinistas já sabem sobre o arminianismo moderno: é um modelo que critica o calvinismo sem saber o que ele ensina. Na verdade, a teologia reformada jamais negou que a graça salvadora de Deus pode ser resistida. O que o modelo reformado diz é que essa graça não pode ser resistida para sempre. Veja o exemplo de Paulo. O Senhor lhe disse: “Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões” (At 9.5). Essa frase talvez indique que Paulo estava sendo incomodado por Jesus já havia algum tempo, mas se recusava a se curvar. No fim, porém, o Senhor o derrubou (literalmente!) e a graça se mostrou então não somente salvadora, mas também vencedora.

Outras histórias além da de Paulo provam que a graça irresistível pode ser resistida por algum tempo, mas sai vitoriosa ao final, convencendo, humilhando, quebrantando e fazendo o indivíduo desejar o Salvador. Entre essas histórias, talvez o leitor possa acrescentar a sua própria, lembrando a forma especial, amorosa e paciente com que o Senhor, talvez ao longo de um lento processo, o buscou e o convenceu a segui-lo de todo o coração.

Tendo mostrado um pouco do que a graça irresistível não é, vamos agora ver o que ela é. Essa graça, quando em operação, é também denominada “chamado eficaz”, pois trata-se de uma vocação divina para a fé que, conforme vimos, no fim sempre sai vitoriosa. O chamado eficaz é diferente do chamado geral. Este é dirigido a todos os que ouvem o evangelho, enquanto aquele só é dirigido aos eleitos.

Por exemplo: veja o caso de Lídia, em Atos 16.13-14. Enquanto escutavam a pregação dos apóstolos, todas as mulheres ali ouviram o chamado geral (o convite dos pregadores a crer no evangelho), mas somente Lídia ouviu o chamado eficaz (o Senhor lhe abriu o coração). Note a diferença: o primeiro chamado (o geral) alcançou todas; já o segundo (o chamado eficaz) só alcançou Lídia. Outro exemplo pode ser visto em Atos 13.46-48. Esse texto mostra que Paulo e Barnabé começaram a pregar para todos os gentios (chamado geral), mas creram somente os que haviam sido designados para a vida eterna (graça especial ou chamado eficaz). Foi por causa dessas realidades que Jesus disse em Mateus 22.14 que muitos são chamados (ouvindo o convite geral do evangelho), mas poucos são escolhidos (para atender o chamado de Deus). Esses “escolhidos” são aqueles que a eleição divina separou, de maneira que Deus atua neles de forma especial, conduzindo-os à fé.

Outros textos bíblicos que falam da graça irresistível são os seguintes:

João 6.37 — Nessa passagem, Jesus diz que aqueles que o Pai lhe dá irão até ele. Isso mostra que só podem ir a Cristo as pessoas que são sobrenaturalmente dirigidas pelo Pai. Ninguém pode ir por si mesmo, sem que Deus o capacite (veja os vv. 44 e 65). É a essa condução e capacitação de Deus que chamamos de graça irresistível.

João 10.16 — Esse versículo mostra que Jesus tem seus escolhidos espalhados pelo mundo e que, no tempo devido, ele os chama individualmente (veja os vv.2-3). Quando isso acontece, essas pessoas ouvem a sua voz e o seguem numa nova vida de comunhão e conhecimento de Deus (veja Mt 11.27).

Romanos 8.30 — Aqui Paulo diz que aqueles que Deus predestinou, a estes também chamou, justificando-os a seguir. Obviamente, trata-se de um chamado especial, dirigido somente aos que Deus predestinou. O chamado de que se trata nessa passagem é eficaz, pois é seguido pela justificação.

1Coríntios 1.26-29 — É clara aqui a alusão que Paulo faz à vocação especial de Deus. Ele estimula os coríntios a aprender algo sobre essa vocação observando os crentes em geral (os que “Deus escolheu”, vv.27-28). Ele afirma que Deus chamou de forma eficaz um número grande de “fracos”. Em contrapartida, essa chamada eficaz atuou num número pequeno de “poderosos”. O apóstolo ensina que a vocação salvífica foi administrada dessa forma para que a sabedoria do mundo fosse humilhada e ninguém se orgulhasse achando que foi salvo por algum mérito pessoal (veja Mt 11.25-26).

A doutrina da graça irresistível torna a flor reformada ainda mais linda, gerando humildade e gratidão no homem salvo, pois este saberá que creu não por ser mais inteligente ou apto, mas porque Deus agiu de modo sobrenatural em seu coração. E mais do que isso: essa doutrina remove também do “ganhador de almas” toda a base para o orgulho, mostrando a ele que, caso tenha algum sucesso em sua obra evangelística, isso será fruto da graça irresistível e do chamado eficaz de Deus, nunca dos seus talentos ou habilidades pessoais. Assim, o evangelista reformado dirá como Paulo: “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Co 3.6-7).

A perseverança dos santos

Chegamos ao último ponto da soteriologia reformada. Aqui, os oponentes do calvinismo se dividem. Muitos (especialmente entre os batistas) rejeitam os demais pontos, mas adotam esse. Outros rejeitam esse também (por exemplo, os assembleianos), dizendo que o crente tem de tomar muito cuidado para não perder a salvação. No cômputo geral, porém, a maioria dos arminianos acredita que o crente pode sim perder a condição de filho de Deus e herdeiro do céu.

Armínio nunca foi contra a doutrina da perseverança dos santos. Na verdade, ele disse apenas que acerca desse assunto era necessária uma reflexão maior. Assim, os que negam essa doutrina são os arminianos posteriores, que tendem muito mais a centralizar no homem a responsabilidade por sua salvação.

A doutrina da perseverança dos santos é também chamada de doutrina da “preservação” dos santos e afirma que aqueles a quem Deus escolheu desde a eternidade e chamou de forma irresistível, ele também guarda da queda absoluta, sendo impossível que percam a salvação. Trata-se de um ensino que realça a segurança eterna dos salvos e fornece o fundamento teológico para a famosa fórmula: “Uma vez salvo, salvo para sempre”.

As bases bíblicas para a doutrina da perseverança dos santos são as seguintes:

João 10.27-29 — Nesse texto, Jesus afirma que dá a vida eterna às suas ovelhas e que elas não podem perecer. Ele diz ainda que suas ovelhas estão em suas mãos e nas mãos do Pai, sendo que nada pode arrebatá-las dessas mãos.

Romanos 8.29-30,33-35,38-39 — Esses versículos indicam que aqueles que Deus predestinou serão fatalmente glorificados. Também destacam que os eleitos do Senhor estão acima de qualquer acusação e que absolutamente nada no universo visível e invisível pode separar essas pessoas do amor de Deus.

1Coríntios 3.15 — Esse texto ensina que, no dia do Tribunal de Cristo, até mesmo os crentes que o serviram mal serão salvos, deixando apenas de receber galardão.

1Coríntios 5.1-5 — Aqui Paulo fala de um crente que fornicava com a mulher do seu próprio pai. O apóstolo diz que esse homem devia ser expulso da igreja e afirma que, mesmo assim, ele seria salvo no dia do Senhor.

Efésios 1.13-14 — Nessa passagem, Paulo fala que os crentes foram selados com o Espírito Santo da promessa e que esse selo é a garantia da sua herança até o dia da redenção (Ef 4.30).

1Coríntios 1.7-8, Filipenses 1.6, 1Tessalonicenses 5.23-24, 1Pedro 1.5; 5.10 e Judas 24-25 — Todos esses textos ensinam que é o próprio Deus quem firma o crente e o preserva em fidelidade até o último dia, sendo a perseverança dos santos uma obra dele operada em seus eleitos.

Mesmo diante de textos tão claros, os arminianos atacam ferozmente a doutrina da segurança eterna dos salvos. Geralmente, eles fazem isso alegando que esse ensino estimula o pecado e a lassidão espiritual. Segundo os arminianos, o crente que acreditar que a salvação não pode ser perdida, não terá temor de Deus e viverá fazendo o que bem entende, sob a falsa segurança de que, de um modo ou de outro, irá para o céu.

Essas alegações, porém, decorrem da ideia nutrida pelos arminianos de que a fé salvadora é uma mera reação humana ao evangelho. Sabe-se, contudo, que, conforme já visto, a fé que salva é uma obra sobrenatural na vida daqueles que Deus escolheu. Essa fé sobrenatural é poderosamente transformadora e santificadora, sendo impossível que aquele que a tem viva continuamente no pecado, se revolvendo alegre na podridão deste mundo (1Jo 2.4,19). Decididamente, os que atacam a doutrina da perseverança dos santos com essas alegações não compreenderam o caráter transformador e renovador da fé salvífica (1Jo 5.4-5).

Os inimigos da preservação eterna dos santos também tentam basear suas ideias em alguns textos bíblicos. Na próxima seção, vamos analisar brevemente esses textos.

Dificuldades

Num cenário evangélico dominado por uma forma de arminianismo rasa e ingênua, é natural que existam ataques à doutrina da preservação dos santos. Muitas vezes, esses ataques buscam fundamento em textos bíblicos. A seguir são alistados alguns desses textos, com breves comentários que mostram quão distantes estão de ensinar a perda da salvação.

Mateus 10.22; 24.13 (em paralelo com Ap 2.26) — Esses versículos dizem que “quem perseverar até o fim será salvo”. Isso faz com que alguns entendam que a salvação é pela fé somada à firmeza e afirmam que crer em Cristo não basta, sendo preciso também ficar firme em meio às provas. Contudo, o próprio Mestre disse que é impossível que os escolhidos abdiquem de sua fé, mesmo nos tempos mais difíceis (Mt 24.24). Portanto, o que esses versículos realmente significam é que existe uma fé falsa que, não tendo origem divina, é sem resistência e cedo desaparece, tão logo surjam as provas. Na Parábola do semeador, Jesus falou dessa fé ilusória e passageira e a contrastou com a fé real e perene dos crentes (Mt 13.1-23). Assim, quando Jesus disse que quem perseverar até o fim será salvo, seu objetivo não era ensinar a perda da salvação ou a salvação pela fé somada à perseverança. Antes, seu propósito era declarar que os crentes verdadeiros são aqueles cuja fé é do tipo que perdura, haja o que houver (Hb 3.14). Os que não têm essa fé durável não serão salvos, pois uma fé assim não é a fé salvadora que Deus concede aos seus eleitos.

Romanos 11.17-22 — Nesse texto, Paulo usa uma analogia, dizendo que os crentes são ramos que foram enxertados na “oliveira” de Deus. Então, ele adverte esses “ramos” acerca do perigo de serem cortados. Muitos entendem que aqui Paulo alerta sobre o risco de alguém perder a salvação. Na analogia de Paulo, porém, ser parte da oliveira não significa unicamente ser salvo. Note-se que quando ele fala dos ramos naturais que foram cortados (v.17), não se refere a judeus que tinham sido salvos e que depois caíram dessa posição. Antes, fala de judeus que desfrutavam das bênçãos dirigidas a Israel, mas que nunca tinham experimentado o novo nascimento. Isso também podia acontecer com alguns gentios ligados à igreja de Roma. Eles podiam se beneficiar das bênçãos do evangelho e depois serem cortados do desfrute dessa “seiva” por não terem uma fé perseverante. Na verdade, isso é muito comum de se ver nas igrejas.

Gálatas 5.4 — Nessa passagem, o desligar-se de Cristo e o cair da graça podem dar a entender que isso se aplica a pessoas que estavam ligadas a Cristo e firmadas na graça, tendo depois perdido essa condição. No entanto, essa passagem se dirige a pessoas que procuravam “ser justificadas pela Lei”, ou seja, a incrédulos judaizantes infiltrados nas igrejas da Galácia — pessoas a quem Paulo chama de “falsos irmãos” (2.4). Os termos usados nesse texto mostram que essas pessoas, na busca da justificação pelas obras, haviam se afastado de Cristo e se autoexilado longe dos domínios da graça.

Hebreus 6.4-8 — Ao contrário do que os arminianos dizem, esse texto não fala de crentes, mas sim de incrédulos que durante um longo tempo se envolveram com as coisas do Reino, participando de suas bênçãos e testemunhando seu poder, mas que, depois disso tudo, produziram somente coisas más. A ilustração dos vv.7-8 mostra que o texto fala de pessoas sobre quem a “chuva” do Espírito caiu “frequentemente” e que, mesmo assim, produziram “espinhos e ervas daninhas”. Trata-se, portanto, aqui, de um incrédulo diferente, que ouviu, provou e testemunhou por anos a fio o poder do Espírito Santo, virando-lhe, afinal, as costas e mergulhando no mal. O v.6 diz que é “impossível” que esse tipo de incrédulo seja restaurado — algo que não se aplica no caso de desvio de crentes, conforme mostram a Bíblia e a experiência comum.

Hebreus 10.26-31 — Muitos entendem que a palavra “fogo” presente nesse texto se refere ao inferno e à perdição eterna que pode alcançar crentes que pecam deliberadamente. No entanto, a palavra fogo deve ser entendida aqui como um castigo presente, aplicado neste mundo. O v.28 mostra que é esse tipo de castigo que o autor tem em mente. Veja esse sentido também em 1Pedro 4.12.

Os inimigos da doutrina da perseverança dos santos não devem apenas rever a hermenêutica desses textos, mas também lidar com questões difíceis. Por exemplo: se alguém perder a salvação, como pode obtê-la novamente? A resposta a essa pergunta geralmente envolve alguma obra Iigada ao abandono do pecado. Assim, o que o crente deve fazer para restaurar sua comunhão com Deus, se torna uma obra pessoal para restaurar sua salvação diante de Deus. No final das contas, a “segunda salvação” acaba sendo pela fé somada a uma medida que a pessoa toma para ser readmitida na igreja.

Outro problema diz respeito à segurança e à paz interior do crente. Se a salvação pode nos escorrer por entre os dedos, quando poderemos, de fato, descansar na redenção que há em Cristo? Quando poderemos saber que tudo está realmente “OK” entre nós e Deus? Ora, todos nós pecamos todos os dias! Como podemos saber se “ainda” estamos salvos? Sim, pois se a salvação se perde por causa do pecado pessoal do crente, quantos pecados bastariam para perdermos nossa herança? Um seria suficiente? Ou seriam necessários dez? E quanto tempo teríamos de permanecer nesses pecados para deixarmos de ser filhos de Deus? Um dia, um mês, um ano? E mais: quais pecados seriam mais eficazes em fazer com que percamos a salvação? Seria necessário adulterar, roubar e matar ou uma fofoca é suficiente para que sejamos condenados novamente ao inferno? Precisamos saber essas coisas para não ultrapassar os limites!

Ora, uma vida vivida nesse suspense está muito longe daquela realidade de paz, descanso e segurança que a Bíblia promete aos crentes em Jesus (Jo 14.1-3; Rm 5.1-2; 2Tm 1.12; 4.8).

Conclusão

Eis aí as cinco tocantes verdades da Tulipa. São verdades que serão acolhidas por todos os que colocam as Escrituras acima das percepções e juízos pessoais; verdades que geram assombro e que, com frequência, levantam questões muitas vezes sem resposta; verdades que os servos de Deus aceitam pela fé, mesmo sem entendê-las plenamente, sabendo que a mente de Deus está muito acima da deles (Rm 11.33-36).


Além de sua grandeza e dos mistérios que encerram, o que mais torna essas verdades bíblicas tão importantes? Em outras palavras: por que lutar tanto por elas? Que diferença fazem, afinal? A resposta a essas questões não é difícil e partes dela já foram mencionadas ao longo desta exposição. De fato, conforme destacado anteriormente, as cinco verdades da flor produzem certos efeitos piedosos, tais como gratidão (pela salvação concedida sem mérito algum), humildade (por saber que em nós, antes de sermos alcançados, só havia depravação) e dependência (decorrente da certeza de que só por causa da ação dele é que somos salvos e nos mantemos em seus caminhos). Ora, gratidão, humildade e dependência são os três maiores pilares da espiritualidade cristã e nada fortalece mais essas colunas do que as tocantes verdades da flor.

Efeitos práticos também decorrem da Tulipa. Eu já os mencionei em parte na primeira seção deste texto, mas quero frisá-los novamente nesta conclusão. Notem: o servo de Cristo que adota a Tulipa abandonará as técnicas humanas de convencimento no trabalho evangelístico; deixará de perder tempo com os insistentes apelos à conversão que enfastiam os crentes ao final de cada sermão de domingo à noite; dará ênfase à pregação da Palavra e à oração como instrumentos do Espírito para a atração dos perdidos em vez do marketing secular e da promoção de eventos na igreja; não se sentirá frustrado nem com seu valor pessoal ameaçado quando pregar e ninguém se converter, pois saberá que isso depende exclusivamente da ação de Deus e não das “habilidades” do pregador; e jamais se sentirá orgulhoso quando conduzir pessoas a Cristo, sabendo que, se isso ocorrer, a causa estará em Deus somente e não em suas aptidões ou preparo.

É assim (entre outras coisas) que os cinco pontos do calvinismo edificam e protegem os crentes, os ministros e as igrejas. Com base neles é que se constrói uma vida de serviço vibrante e realizador a Cristo, além de uma comunidade de fé madura que compreende a dimensão infinita da graça salvadora e, dessa forma, se sente verdadeiramente alegre e grata por sua redenção.

Fonte: Igreja Batista Redenção
Título original: “As tocantes verdades da flor: os cinco pontos do calvinismo”
Retirado do Blog Todah Elohim


quarta-feira, 6 de abril de 2016

Deus Ama Todos, mas não Salva Todos!

 


Recentemente, recebi a seguinte mensagem:
Paz e Graça, Pr. Marcos.
Eu tenho uma dúvida sobre 1Timóteo 2.3-4. O senhor disse certa vez que esse texto significa que Deus realmente quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade.
Entretanto, acho que isso contraria a doutrina da eleição incondicional. Veja a contradição no silogismo abaixo:
1) Deus escolhe os eleitos de acordo com a sua soberana vontade;
2) Deus quer que todos os homens se salvem;
3) Deus escolhe apenas alguns para a salvação.
Conclusão: a vontade de Deus NÃO foi satisfeita. De acordo com esse raciocínio, haveria algo maior que limitaria a vontade de Deus. Logo, parece-me que o único meio de o calvinismo resolver essa questão é dizer que no texto de 1Timóteo 2.3-4 “todos os homens” não significa “todos”. Se significasse, a vontade de Deus seria limitada por algum fator. Que fator seria esse?
Desculpe prolongar-me na pergunta. Aguardo ansioso pela resposta.
Irmão Z
.................
A pergunta do irmão Z circula pela cabeça de muita gente. Por isso, resolvi compartilhar com todos a resposta que enviei para ele:
Prezado irmão Z,
Obrigado por levantar essa importante questão. Espero poder ajudá-lo com o que escrevo a seguir.
De antemão, queria destacar que o silogismo não é a melhor maneira de se fazer teologia. Já usaram bastante esse método no período escolástico (quando tentaram casar teologia com filosofia) e o resultado não foi a obtenção de verdades bíblicas, mas sim um modelo tão distante das Escrituras que foi necessário o advento da Reforma pra tentar resolver um pouco as coisas.
Outra ressalva que quero apresentar é que eu creio sim que Deus quer que todos os homens sejam salvos. No entanto, penso que o texto de 1Timóteo não seria interpretado de forma absurda se entendermos “todos os homens” no sentido expresso nos vv.1-2. Veja com atenção esses versículos, em que Paulo manda orar por “todos os homens” e então dá um exemplo do que tem em mente, dizendo “em favor dos reis...”. Isso mostra que “todos os homens”, nessa passagem, pode sim se referir a classes de homens: reis, governadores, escravos, gentios, judeus... É esse o sentido claro de “todos os homens” no v.2 (aliás, seria impossível orar em favor de cada indivíduo que há no mundo) e pode muito bem ser também o sentido da expressão no v.4.
Mesmo assim, creio que Deus quer que todos os homens sejam salvos. Só estou dizendo que o texto de1Timóteo 2 não é o melhor texto para se defender isso, como pensam os arminianos.
O que eu disse, porém, leva à questão levantada por seu silogismo. Como se pode conciliar isso com a doutrina da eleição? Vou tentar explicar apresentando uma sequência de verdades:
1. Deus quer que todos os homens se salvem, pois é um Deus de amor infinito;
2. Deus quer também mostrar a sua justa ira sobre a humanidade pecadora — Rm 9.22 (essa parte dos fatos não foi levada em conta no seu silogismo);
3. Para conjugar esses dois anseios, Deus age não com base em suas “inclinações” (somente seu amor ou somente sua ira), mas sim por meio de um decreto eletivo (o beneplácito ou conselho de sua vontade, mencionado em Efésios 1). É aí que sua vontade afetiva cede lugar à sua vontade decretiva;
4. Assim, por meio da eleição, Deus realiza tanto o seu amor infinito como a sua ira justa.
Veja que, para entender isso, é preciso considerar que Deus quer TAMBÉM mostrar sua ira contra o pecado. Os arminianos não entendem (ou não aceitam isso), pois pintam um deus meio papai-noel, que só quer mostrar amor — um deus criado pela mentalidade popular. Eles erram não obedecendo ao que Paulo diz emRomanos 11.22: “Considerai, pois, a bondade e a SEVERIDADE de Deus...”. Note que seu silogismo o deixou numa situação difícil porque você não considerou a severidade de Deus, mas somente sua bondade. Aí se deparou com o dilema de qual fator impede a suposta vontade de Deus de somente salvar. Quando, porém, se olha para o ensino bíblico completo, percebemos que a vontade completa de Deus (que envolve salvar e PUNIR) não foi frustrada. Antes, pela eleição, seu desejo de salvar e seu desejo de punir foram ambos satisfeitos.
Agora, gostaria de olhar para o problema que você apresentou destacando o drama arminiano. Os arminianos insistem que Deus quer que todos sejam salvos e ponto final. O problema é que, obviamente, nem todos são salvos. Aí entra o problema que você levantou: qual é o fator que impede que a vontade de Deus se realize? A resposta arminiana é simples: o “livre arbítrio”, ou seja, a vontade humana impede que a vontade divina se realize. Opa! Você percebe aonde estamos chegando? A vontade humana impede que a vontade divina se realize!
Isso já é de doer, mas os arminianos saem dessa muito facilmente, dizendo: “Deus permite que seja assim porque ele respeita a vontade humana e, por isso, deixa a decisão com o homem”. Opa! Como é que é? Um Deus de amor, cujo único desejo é salvar todos, vê milhões de pessoas tomarem uma decisão que as leva ao inferno eterno e ele as deixa seguir em frente por respeito!!!
Traga isso para nossa experiência humana. Eu vejo uma pessoa tomar a decisão de beber veneno. Então, como eu a amo muito e respeito sua liberdade, eu permito que ela beba. O que você acha? Tudo bem pra você? Sabendo disso, você diria: “Que pessoa fantástica é esse Granconato! Quanto respeito ele tem pela liberdade das pessoas!”. Você diria isso? Ora, por favor! Em vez disso você me perguntaria: “Pastor, por que você não a impediu? Como pôde ser tão indiferente e deixá-la seguir naquela decisão maluca?”. Se eu respondesse que agi assim por amor e respeito você não diria que eu sou louco?
Pois bem, o deus arminiano é assim: ele deseja apenas salvar a todos, mas, por “respeito”, ele permite que milhões tomem o veneno sem fazer nada, deixando tudo para o homem decidir. Quem decidir ter fé, sorte dele. Quem não quiser ou não conseguir ter fé, sinto muito...
Já o Deus bíblico interfere. Ele sabe que os homens, por causa da natureza pecaminosa e da corrupção de seu coração, se forem deixados à mercê de si mesmos, todos optarão por tomar o veneno. Então ele interfere, livrando milhões de pessoas, falando ao coração delas, convencendo-as do perigo, trabalhando docemente em sua vontade, quebrantando sua mente perversa, concendendo-lhes a fé (dom de Deus), chamando-as pelo nome com sua doce voz e conduzindo-as ao Filho.
Por que esse Deus não age assim com todos? Porque ele quer também mostrar sua ira.
Por que ele escolheu a mim para mostrar seu amor e ao meu vizinho para mostrar sua ira? Esse é o abismo da cruz! Nada de bom foi visto em nós. Eis o mistério! É a graça totalmente gratuita. Diante do abismo eu me curvo com uma mente cheia de perguntas (por que ele me escolheu?), mas também com o coração cheio de gratidão (obrigado porque o Senhor me escolheu).
Bem, acho que já escrevi muito. Espero ter ajudado um pouquinho.
Deus o abençoe em sua busca. A teologia da salvação é uma aventura fantástica. Espero que você cresça nesse caminho e vibre com as verdades da graça inescrutável do nosso soberano Deus.
Abraço fraternal,
Pr. Marcos Granconato

Fonte: Site Igreja Batista Redenção 


terça-feira, 29 de março de 2016

A CILADA DO LOUVOR GOSTOSO E ATRAENTE

 
Recentemente, enquanto cortava o cabelo, surgiu um papo sobre igrejas e a confusão que causavam nos arredores. O gerente (que não é crente) disse o seguinte:
“Cara, passei na frente de uma igreja lá perto de casa. A porta tava aberta e lá dentro deu pra ver que tava tudo escuro, com aquelas luzes estroboscópicas e um som altão. Parecia mais uma boate! É pra ser boate ou igreja? Nem tinha cara de igreja.”
Fiquei com vergonha de estar numa posição de ter que defender algo sem defesa. Me resumi a concordar meio cabisbaixo.
A verdade é que aquela afirmação me incomodou profundamente. A questão não é tanto “Que cara deve ter a igreja?”, já que temos igrejas com diversas “caras” e essa é uma conversa para outro espaço. Mas o que me tira do sério em relação a isso é o fato de eu conhecer os argumentos por trás daquela “igreja” (ou boate, segundo o gerente). “Precisamos de uma música legal para atrair os jovens! Precisamos atrair os que não são crentes! Assim fica ‘mais fácil’ louvar, pois me sinto mais livre!”
Já ouvi todos esses argumentos antes… Mas não consigo defender nenhum deles. Aliás, não poderia discordar mais! Mas não basta discordar, apenas. Tenho que dar uma explicação.

O QUE É LOUVOR?

Antes de responder aos argumentos, temos que definir os termos. Dentre as diversas definições de louvor disponíveis, creio que esta, de Bob Kauflin, seja sucinta e bem completa:
            “O louvor cristão é a resposta do povo redimido e com Deus à sua auto revelação que celebra e exalta a glória de Deus em Cristo nas nossas mentes, afetos e vontades, por meio do poder do Espírito Santo.”
Alguns pontos essenciais a destacar:

1. O NÃO CRENTE NÃO PODE LOUVAR A DEUS

O louvor é uma atividade exclusiva do povo de Deus, uma resposta à revelação do Pai, pela obra do Filho, por meio do Espírito Santo. O louvor só pode vir de um coração que reconhece a obra de Cristo e o tem como Senhor e Salvador. Fora disso, o louvor cristão simplesmente NÃO FAZ SENTIDO!
Pense no seguinte: quando louvo à minha esposa, reconhecendo, exaltando e celebrando suas virtudes e tudo que ela é na minha vida, que sentido faz isso na voz de outro? Quem é que pode, como eu, afirmar tais coisas? Ninguém! Ela é a minha esposa e o relacionamento que tenho com ela é exclusivo. Esse louvor não faria sentido na boca de mais ninguém, a não ser do marido dela.
Assim é com o povo de Deus. Como é que um coração não regenerado pode louvar a Deus pela sua obra? Não pode! Mais ainda, como é que um coração não regenerado, não alcançado pelo Espírito Santo pode sequer afirmar Cristo como Senhor e Salvador? Não pode! 1 Coríntios 12:3 diz claramente: “… ninguém pode dizer: ‘Jesus é Senhor’, a não ser pelo poder do Espírito Santo.”

2. O NÃO CRENTE NÃO QUER NADA COM DEUS

Quando afirmamos que vamos atrair alguém para o louvor, partimos do pressuposto de que há algo de atraente nele. Primeiro, o louvor cristão só faz sentido se for direcionado a Deus. Ou seja, a única atração possível no louvor tem que ser o objeto da adoração. A atração pela adoração em si ignorando o objeto da mesma é ridículo. E a verdade é que o não crente não só ignora o objeto da adoração, como o rejeita e foge dele! Romanos 1:21 e 3:10,11 deixam claros que nós todos rejeitamos a glória de Deus e não o buscamos, de maneira alguma! Ou seja, o ser humano, sem a ação do Espírito Santo para lhe converter, simplesmente não tem vontade alguma de louvar a Deus!

3. QUANDO LOUVAMOS A DEUS, O FAZEMOS PELO PODER O ESPÍRITO SANTO, E ISSO NOS TRANSFORMA COMPLETAMENTE

O louvor é uma resposta que vem pelo poder do Espírito Santo, não de nós. Nossa mente, coração e vontades mudam. Contrariamos a carne para produzir uma resposta que só pode vir pela ação do Espírito Santo. Nós reconhecemos a Deus, nós exaltamos, celebramos e temos prazer na glória de Deus somente porque o Espírito Santo mudou nossa mente e nossas afeições e vontades, completamente.
Tendo dito isso, pensemos em alguns pontos a respeito do louvor “para atrair os descrentes” e o “louvor gostoso”.

1. O LOUVOR NÃO ATRAI O NÃO CRENTE. MAS TALVEZ A MÚSICA ATRAIA… E ISSO NÃO É NECESSARIAMENTE UMA COISA BOA

Como dissemos acima, o louvor não atrai o não crente. Mas fica a pergunta para os que usam a música como instrumento para atração: a qual aspecto do louvor você está chamando a atenção? Se for para a mensagem da música (supondo que ela seja fundamentada na Palavra de Deus), então é o Espírito Santo que vai atrair, e não a execução. Aliás, a execução pode ser a pior possível, pois é o Espírito Santo que fala por meio da sua Palavra. Agora, se o não crente é atraído pelo “clima gostoso”, por que ele continua lá? Por que razão um não crente participa da exaltação daquilo que ele rejeita, de um Deus do qual ele foge?
A verdade é que, em alguns casos, ele se sente bastante à vontade simplesmente porque aquilo que deveria causar confronto e rejeição não está presente! E se ele fica pela boa música… então não faz diferença se for louvor ou não. De boa música, a rádio e as casas de show estão cheias.

2. A MÚSICA NÃO DEVE OCUPAR UM LUGAR QUE NÃO LHE PERTENCE

Um pressuposto que corre por trás disso tudo é que a música cumprirá um papel que não lhe é atribuído. A música serve ao louvor, e não o louvor à música. Quando definimos o louvor a partir da música como instrumento de atração, a colocamos num lugar que pertence à Palavra de Deus e ao Espírito Santo. Romanos 10:17 não diz “A fé vem pelo ouvir… a boa música… ou… o canto da congregação… ou a música bonita que toca.” A fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus. Agora, se o louvor inclui letras que falam da obra de Deus, que pregam a Palavra, que citam trechos das Escrituras, aí já é outra história, pois aí é a Palavra e o Espírito que agem, não a direção musical.

3. NÃO PRECISAMOS DE UM AMBIENTE GOSTOSO POIS “É MAIS FÁCIL LOUVAR”

Primeiro: O PRAZER NÃO É UM PRINCÍPIO DE LOUVOR.
Segundo: O LOUVOR NÃO PODE SER CONDICIONAL.
Muitos falam sobre criar um clima de adoração ou facilitar o agir de Deus, o fluir do espírito. Mas a verdade é que o verdadeiro louvor é algo que necessariamente contraria a carne! Como falamos acima, o louvor é algo que vai contra a nossa natureza caída. Ou seja, muitas vezes, o nosso louvor precisa ser sacrificial e contra o nosso próprio prazer!
Há também outras perguntas que surgem: Como é um ambiente ideal para o louvor? Por acaso seria uma prisão fria e sem música? Afinal, Paulo e Silas louvaram ali, certo? E será que quando Davi diz no Salmos 34:1, “Bendirei o Senhor o tempo todo! Os meus lábios sempre o louvarão”, ele tinha em mente um ambiente específico? Será que “o tempo todo” e “sempre o louvarão” eram algo restrito a um contexto que ele deixou de fora do Salmo? Não. O ambiente ideal para o louvor é na boca de um pecador, de um coração regenerado que reconhece a Cristo como Senhor e Salvador.
O louvor pode ser prazeroso? Não, de forma alguma. Não é o louvor em si que nos traz prazer, e sim o encontro que temos com Deus em meio aos louvores, a confrontação com o nosso pecado e a paz que excede todo o entendimento que temos por meio do reconhecimento e afirmação do Filho e sua obra na cruz.
É fácil louvar? Se você entender o alto preço que foi pago e a punição que Cristo sofreu em nosso lugar, então sim, é fácil louvar. Se não for por isso, então não vai ser gelo seco, luz meio apagada e uma batida legal que vão facilitar o louvor.
O louvor não depende das nossas circunstâncias, mas sim daquilo que JÁ FOI FEITO na cruz! Logo, podemos e devemos louvar, sempre!

4. O “AMBIENTE GOSTOSO” PREGA UM FALSO EVANGELHO

Voltando à premissa de que ninguém busca a Deus: não há um ser humano sequer que não busque paz, felicidade, amor, plenitude do ser e outras palavras bonitas. E nós sabemos que encontramos tudo isso em Deus. Mas se colocamos a carroça na frente dos bois, estamos fazendo a coisa errada. Se alguém vem para a igreja e encontra Deus, ele encontrará todas essas coisas. Mas lembre-se de que o mundo rejeita a Deus. É bem capaz de alguém entrar na sua igreja com “um ambiente legal e acolhedor” e encontrar todas essas coisas, mas não Deus. E aí ele continuará tão perdido quanto no dia em que entrou.
Leve as pessoas a um encontro com Deus, não com os benefícios que esse encontro traz, somente. Pois no dia em que ela não sentir mais paz e alegria, ela continuará a sua busca em outro lugar. Mas se estiver buscando a Deus e o encontrar, aí não terá outro lugar para estar, se não ali mesmo.
Concluindo, quando colocamos a música acima da Palavra, o canto acima da confissão, o ambiente externo acima do coração quebrantado, preparamos uma tremenda cilada para descrentes, visitantes e para nós mesmos. Quando colocamos questões secundárias no lugar daquilo que é essencial, desvirtuamos e corrompemos o louvor, colocando o homem como critério e alvo da nossa adoração, e não a Deus.
Eu espero que um dia aquele gerente possa passar na frente de uma igreja e ver algo que tenha “cara de igreja”, ou seja, um ajuntamento de pecadores reunidos celebrando e cantando sobre a obra redentora do seu Senhor e Salvador. Quem sabe, ele não ouça a mensagem do Evangelho e venha a conhecer a Deus nesse dia.
Por: Andrew McAlister
Fonte: Site Cante as Escrituras 

terça-feira, 22 de março de 2016

Visão do Alto | Erro grosseiro do papa Francisco

 



Fonte: Canal do YouTube  Redenção IBR


Depravação Total (TULIP) - Augustus Nicodemus

 






Sexo, poder e dinheiro: cuidado com quem domina você.

 

por Mark Jones

“Se você quer saber quem domina você, descubra quem você está proibido de criticar” (Voltaire)
Se as três irmãs da graça são fé, esperança e amor, também podemos dizer que as três irmãs da carne são sexo, poder e dinheiro.
Anos atrás, eu fui alertado sobre essas irmãs da carne.
Todos nós somos constituídos de maneira diferente em corpo e alma. E nossas constituições naturais alimentam desejos particulares, pois o corpo e alma possuem um relacionamento orgânico entre si. Além disso, a posição social de uma pessoa também tem implicações para os tipos de pecado que ela comete: aqueles que são prósperos são inclinados a certos pecados, aqueles que são pobres a outros. Aqueles que têm grande intelecto são inclinados ao orgulho. Os pais devem ser cuidadosos antes de chamar seus filhos de o próximo Einstein.
Certos pecados são mais dominantes em diferentes estágios da vida. Uma criança possui um coração que será inclinado a certos pecados somente mais tarde. Além disso, os desejos pecaminosos dos indivíduos duram de acordo com suas variadas vocações. Judas roubou porque ele era pecador, e também porque, como tesoureiro, foi colocado diante de uma oportunidade fácil de roubar.
Para responder à objeção de que certos pecados são contrários a outros e que os homens não são dados a todos os tipos de cobiça, Thomas Goodwin explica que as pessoas são inclinadas a diferentes pecados em diferentes estágios de suas vidas. Assim, o jovem pródigo pode tornar-se cobiçoso quando for idoso. Também é verdade que algumas pessoas têm antipatia por certos pecados, mas essa antipatia não é moral, mas física, “ou porque seus corpos não suportam ou por algum outro incômodo que eles veem naquilo” (Goodwin). Um hipocondríaco pode não visitar uma prostituta por temor de ficar doente, em vez de temor de Deus.
A tentação para Davi ter Bate-Seba foi fortalecida pelo fato de que ele podia ter Bate-Seba. Essa tentação para a lascívia foi obviamente diferente para Davi quando ele era velho. Se nós pudéssemos ter qualquer mulher que quiséssemos, provavelmente lutaríamos muito mais com tentação sexual do que fazemos. O quaterback bonitão da universidade normalmente tem tentações maiores com mulheres que o capitão-assistente da equipe de xadrez.
Talvez nós devamos agradecer a Deus agora porque não somos particularmente atraentes ou bonitos; nós podemos agradecer a Deus porque não desfrutamos de muitos sucesso; nós podemos descobrir um dia que ele nos manteve pobre (ou com a aparência relativamente mediana) para nos salvar e guardar de muitos pecados.
Nós podemos não achar que dinheiro é tentação até que a porta para o dinheiro se abra um pouquinho. Logo, como um leão provando sangue pela primeira vez, a porta se abre, nossos bolsos começam a ficar cheio daquilo que nos controla, e estamos indefesos contra a putrefação que se iniciou. Tudo isso para dizer que não sabemos o quanto amamos o dinheiro até que se torne realmente uma tentação real. Fique alerta: aqueles que lhe dão dinheiro provavelmente também controlam você de alguma forma. E, assim, você rapidamente é incapaz de criticá-los de qualquer maneira, forma ou jeito. Você se torna cada vez mais cego, como os ídolos a quem você serve (Sl 115). Eu fico feliz que meu empregador é a igreja local e nenhuma organização tem controle sobre mim porque me pagam um monte de dinheiro.
Nós podemos não achar que amamos o poder até que tenhamos um gosto do poder. Tudo o que eu tenho visto até agora em círculos reformados tem somente me convencido que não somente o dinheiro corrompe, mas o poder corrompe ainda mais. De fato, quanto mais dinheiro, mais poder. Aqueles que estão no poder podem rapidamente cultivar uma cultura do medo. Como Voltaire disse, “Se você quer saber quem domina você, descubra quem você está proibido de criticar”. Eu acho que alguns de nós poderiam achar esse exame bastante desconfortável.
M’Cheyne disse bem: “As sementes de todos os pecados estão em meu coração e talvez o mais perigoso é que eu não as vejo”. Imagine ter amigos que realmente desafiarão você e lhe dirão que você está sendo estúpido!

Traduzido por Josaías Jr
Fonte: Reforma 21 


quarta-feira, 9 de março de 2016

A Questão das Riquezas














Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um, e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.(Mateus 6:24)

 Jesus explica, agora, que além da escolha entre dois tesouros (onde vamos ajuntá-los) e entre duas visões (onde vamos fixar os nossos olhos) jaz uma escolha ainda mais básica: entre dois senhores (a quem vamos servir). É uma escolha entre Deus e Mamom: “Não podeis servir a Deus e a Mamom” (ERC); isto é, entre o próprio Criador vivo e qualquer objeto de nossa própria-criação que chamamos de “dinheiro” (“Mamom” é uma transliteração da palavra aramaica para riqueza). Não podemos servir dos dois.


Algumas pessoas discordam destas palavras de Jesus. Recusam-se a ser confrontadas com uma escolha tão rígida e direta, e não vêem a necessidade dela. Asseguram-nos que é perfeitamente possível servir a dois senhores simultaneamente, por conseguirem fazer isso muito bem. Diversos arranjos e ajustes possíveis parecem-lhes atraentes. Ou eles servem a Deus aos domingos e a Mamom nos dias úteis, ou a Deus com os lábios e a Mamom com o coração, ou a Deus na aparência e a Mamon na realidade, ou a Deus com metade de suas vidas e a Mamom com a outra.


Pois é esta solução popular de comprometimento que Jesus declara ser impossível: Ninguém pode servir a dois senhores...Não podeis servir a Deus e às riquezas (observe o “pode” e o “não podeis”). Os pretensos conciliadores interpretam mal este ensinamento, pois se esquecem da figura de escravo e dono de escravo que se encontra por trás destas palavras. Como McNeile disse: “Pode-se trabalhar para dois empregadores, mas nenhum escravo pode ser propriedade de dois senhores”, pois “ter um só dono e prestar serviço de tempo integral são da essência da escravidão”. Portanto, qualquer pessoa que divide sua devoção entre Deus e Mamom já a concedeu a Mamom, uma vez que Deus só pode ser servido com devoção total e exclusiva. Isto simplesmente porque ele é Deus: “Eu sou o Senhor, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem”. Tentar dividir a nossa lealdade é optar pela idolatria.


E quando percebemos a profundidade da escolha entre o Criador e a criatura, entre o Deus pessoal glorioso e essa coisinha miserável chamada dinheiro, entre a adoração e a idolatria, parece inconcebível que alguém faça a escolha errada, pois agora é uma questão não apenas de durabilidade e benefício comparativos, mas sim de valor comparativo: o valor intrínseco de um e a intrínseca falta de valor do outro.

por   John Stott


Fonte: Site Monergismo 





terça-feira, 8 de março de 2016

Onisciência e Livre-arbítrio não podem se compatibilizar

 

Predestinação em Jó - Gordon Haddon Clark

O próximo livro é o de Jó. Se esse livro foi escrito por ou sobre alguém que viveu nos dias de Abraão, podemos ver quão cedo e quão enfaticamente Deus revelou o princípio da predestinação. O apóstolo Paulo, embora o tenha proclamado irrefragavelmente, chegou atrasado. Muito do livro de Jó pode ser chamado de material de pano de fundo. Tais passagens não tornam todas as coisas explícitas, mas dificilmente fazem sentido fora da doutrina calvinista.

Por exemplo, no capítulo 1 Satanás aparece no Céu diante de Deus.

Eles discutem sobre a justiça de Jó. Eis o teste descrito: “E disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está na tua mão; somente contra ele não estendas a tua mão.” Quando os desastres e a perda de sua parentela tomaram lugar, “em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.” Então Satanás pediu para atormentar Jó em seu corpo, pois tinha dito: “Porém estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás se não blasfema contra ti na tua face!”. Ao que Deus replicou: “Eis que ele está na tua mão; porém guarda a sua vida.”


Os arminianos, usualmente, estão inteiramente contentes em ter Deus “permitido” coisas, coisas más, acontecerem. Eles não estão desejosos em dizer que Deus causa o acontecimento delas. E eles se perturbam até à indignação se alguém diz que Deus causa um homem escolher o mal. Os calvinistas perguntam: Pode a primeira ser mantida sem a última?

Pode ser observado, em primeiro lugar, que o próprio Satanás considera a sua tortura sobre Jó como algo feito por Deus. “Porém estende a tua mão”, diz Satanás, “e toca-lhe na carne”. Se não desenvolvermos esse ponto – reconhecendo que Satanás era a causa imediata da miséria de Jó, e até mesmo dizer que Deus “permitiu” isso tudo – a idéia de permissão dificilmente absolve Deus da variedade arminiana de responsabilidade. Deus sabia o que Satanás faria; e Deus disse: “Faça.” O texto em si mesmo chama a atenção para o ponto de que Satanás nada pode fazer sem a permissão de Deus. O fato que Satanás estava nas mãos de Deus não é algo que os arminianos podem aprovar.

Mas há mais. Mesmo antes do capítulo 2, os Sabeus destruíram alguns dos filhos de Jó à espada. Omito o fogo do versículo 16. Os Caudeus assassinaram alguns outros servos e roubaram os camelos. Para cumprirem-se essas coisas, os sabeus e os caldeus tiveram que decidir fazê-las. O capítulo certamente sugere, sem dúvidas, que Satanás poderia efetivar essas tragédias. Então ele deve ter sido capaz de controlar as volições dessas pessoas. Que seja dito uma vez, e que seja dito duas vezes, que Satanás não poderia ter usado os saqueadores a não ser que Deus tivesse lhe dado permissão. Mas permanece o fato que Satanás controlou o que os arminianos reputam como livre-arbítrio. Contudo, vontades “livres” são aquelas que não são causadas por nada.

Jó 10:8-9 repete uma idéia encontrada antes, e que será repetida por todo o Antigo e Novo Testamento com ênfase crescente. O versículo diz: “As tuas mãos me fizeram… como barro me formaste.” Visto que as implicações do Oleiro e do barro vêm à tona posteriormente, aqui podemos avançar para a próxima passagem.

Jó 14:5, lê-se: “seus dias estão determinados… tu lhe puseste limites, e não passará além deles.” Isso, de fato, obviamente indica que Deus controla a extensão da vida de uma pessoa. Essa predestinação abrangente não perturba nossos oponentes. Contudo, esse é um dos muitos detalhes que, quando reunidos, mostram que Deus governa todas as suas criaturas e todas as ações delas. A referência a “limites, e não passará além deles” pode também significar nada mais que a extensão da vida. Mas se talvez, como Atos 17:26, isso inclua “limites da sua habitação”, a inferência seria que Deus determina onde o homem escolhe viver, de tal maneira que não poderia escolher um outro lugar.

Há muitas passagens que por si mesmas não estabelecem a doutrina da predestinação total. Os arminianos podem corretamente insistir que os argumentos baseados nelas são logicamente inconclusivos. A despeito disso, são enumerados tantos detalhes aqui e acolá, que a descrição como um todo favorece a predestinação total e é destituída de qualquer menção contrária. Por exemplo, Jó 15:14 ensina que os bebês não nascem justos, ou mesmo neutros, mas definitivamente pecaminosos. Mais convincente é Jó 19:8-20. Essa passagem indica que Deus mudou os pensamentos e considerações dos irmãos de Jó, conhecidos, parentes, servas, domésticos, filhos e esposa. Note que Deus não apenas causou certos tormentos físicos, mas ele causou, no povo mencionado, a mudança de suas atitudes em relação a Jó. Nada nessa calamitosa situação ocorreu sem a atividade divina.

Em 23:10, Jó reconhece que Deus eventualmente o faria sair como ouro; não obstante isso, esses males são o que Deus deseja (v. 13): “O que a sua alma quiser, isso fará. Porque cumprirá o que está ordenado a meu respeito... Porque Deus macerou o meu coração, e o Todo-Poderoso me perturbou.” No primeiro capítulo Satanás havia pedido permissão para fazer essas coisas, mas Jó reconhece que elas foram ações de Deus.

Outra idéia começa a emergir em Jó 31:4, uma idéia que é claramente contrária à doutrina do livre-arbítrio. O versículo diz: “Ou não vê ele os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?” À primeira vista isso pode parecer que Deus, após ter sido ignorante por um tempo, começou a olhar para Jó e contar seus passos. Assim, Deus aprendeu algo que não sabia antes. Esse é o motivo da sentença acima dizer que uma outra idéia começa a emergir. A idéia é relativa ao conhecimento de Deus. Versículos posteriores darão uma explanação mais adequada do conhecimento de Deus, e então se tornará evidente que onisciência e livre-arbítrio não podem se compatibilizar.

A seguir, seria bom ler Jó 33:4-17, no qual essas frases aparecem: “do barro também eu fui formado… observa todas as minhas veredas… não responde acerca de todos os seus feitos… revela ao ouvido dos homens, e lhes sela a sua instrução, para apartar o homem daquilo que faz…”.

Novamente a Escritura diz que Deus é o oleiro e nós somos o barro. Ele faz cada um de nós o tipo de vaso que escolhe. Ninguém pode chamá-lo para prestar contas; ele não é responsável a nós, nem a alguém outro. Se lhe agrada mudar nossos propósitos e escolhas, ele assim o faz.


Se algum homem tenta considerar Deus responsável por algo, Deus responde (Jó 38:4, 31): “Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência… Ou poderás tu ajuntar as delícias do Sete-estrelo ou soltar os cordéis do Órion?”. Não é prerrogativa humana replicar contra Deus. “Porventura o contender contra o Todo-Poderoso é sabedoria? Quem argüi assim a Deus, responda por isso” (Jó 40:2). Essas não são palavras de um calvinista direcionadas a Tiago Armínio e John Wesley. São palavras de Deus!

Mas talvez o versículo mais forte, dentre todos esses, é Jó 42:2. Na King James Version lê-se: “Eu sei que tu podes fazer todas as coisas, e que nenhum pensamento pode ser retido de ti.”A America Standard Version 1901 faz isso um pouco mais claro: “Eu sei que tu podes fazer todas as coisas, e que nenhum dos teus propósitos pode ser restringido.” Deus pode fazer todas as coisas.


Ele pode e muda os pensamentos dos homens. Era seu propósito que Judas deveria escolher trair Cristo. Judas não poderia ter escolhido de outra maneira.
Sua vontade não era livre. De outro modo, Judas poderia ter arruinado o plano eterno de Deus e violado todas as profecias. Era também o propósito de Deus mudar a vontade de Paulo. Paulo não poderia ter resistido à visão celestial. Doutra sorte, Paulo poderia ter arruinado o plano de Deus para a pregação do Evangelho aos gentios.


E toda essa teologia foi revelada a Jó talvez tão cedo quanto 2000 a.C.

- Tradução: Jazanias de Assis Oliveira

- Fonte: Monergismo 
- Fonte (Original): Predestination, Gordon H. Clark, Presbyterian and Reformed Publishing Co., páginas 168-72.

- Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que inclua estes créditos, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

Via: Página Peregrino Puritano 




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