Cinco Votos para Obter Poder Espiritual.

Primeiro - Trate Seriamente com o Pecado. Segundo - Não Seja Dono de Coisa Alguma. Terceiro - Nunca se Defenda. Quarto - Nunca Passe Adiante Algo que Prejudique Alguém. Quinto - Nunca Aceite Qualquer Glória. A.W. Tozer

terça-feira, 31 de maio de 2016

O mistério da vontade de Deus: o uso de Daniel 2 em Efésios 1.8-10

 

Introdução


O que é “mistério”? Atualmente essa palavra está relacionada a algo que transcende o nosso entendimento, estando além da nossa capacidade de explicação, sendo um enigma sem soluções, um problema sem resposta.

Nesse sentido, é comum (e legítimo) teólogos falarem sobre o “mistério da Trindade”, ou sobre o mistério da “união hipostática de Cristo”, ou ainda sobre a “misteriosa providência Divina”, pois ainda que possamos entender essas doutrinas, sabemos que elas infinitamente ultrapassam os limites da nossa cognição, devido ao fato de serem coisas pertencentes ao próprio ser de Deus, que é infinito.

Mas qual o significado do termo “mistério” na Bíblia? Será que é o mesmo dos dias atuais? Embora alguns exegetas aplicam diretamente o significado atual de mistério aos escritos bíblicos, cometendo a falácia exegética do anacronismo semântico, neste artigo demonstrarei que o significado de mistério em Efésios (esp. 1.9) diverge do seu significado atual. Veremos na conclusão que mistério em Efésios 1.9 significa algo que estava oculto no passado, mas que agora é totalmente revelado.

As dificuldades dessa passagem têm causado transtorno a teólogos e exegetas ao longo dos séculos. O propósito deste artigo é demonstrar que o pano de fundo do termo mistério em Ef. 1.9 está em Daniel 2, e que de fato os versos 8-10 fazem uma alusão intencional a Dn. 2, lançando assim alguma luz para a interpretação correta do texto.

O contexto do Novo Testamento: Efésios 1.3-14

Logo após sua tradicional saudação (1.1-2), Paulo passa a louvar ao Deus Trino pela sua obra redentora (1.3-14). A expressão inicial “Bendito seja Deus...” tem suas raízes no Antigo Testamento e na tradição judaica, amplamente conhecida como “Berakah”. Deus é louvado pelas bênçãos espirituais outorgadas ao seu povo, que são tanto identificadas como fundamentadas pelos versos 4-14.

Podemos estruturar essa perícope pela expressão “louvor da sua glória”, que aparece nos versos 6, 12 e 14, onde o foco da obra redentora recai sobre o Pai em 1.4-6, sobre o Filho em 1.7-12 e sobre o Espírito em 1.13-14 (ainda que não seja necessária uma divisão absoluta, pois como o próprio texto deixa claro, em cada etapa salvífica toda a Trindade está envolvida).

Nosso texto está na segunda subdivisão (1.7-12). Paulo fala sobre a redenção e remissão dos pecados que o cristão tem em Cristo (1.7) e isso é concedido pela graça somente. Essa mesma graça nos dá sabedoria e prudência (1.8) que nos capacita a entender o mistério da vontade de Deus (1.9) que consiste em fazer convergir todas em coisas em Cristo na plenitude dos tempos (1.10).

O contexto do Antigo Testamento: Daniel 2

O termo mistério desempenha uma função pivô no livro de Daniel, encapsulando tanto uma forma simbólica de revelação como sua interpretação. Esse mistério diz respeito a um evento no fim dos tempos, que naquela época estava oculto, mas que seria revelado. Essa revelação não seria totalmente nova, antes seria o desdobrar completo de algo cuja extensão do seu significado estava oculta.

O termo aramaico para mistério (rãz) aparece nove vezes no livro de Daniel (Dn. 2.18, 19, 27-30, 47; 4:9 [4:6 MT]). Uma análise completa desses usos vai muito além do nosso espaço neste artigo.

Daniel 2 fala sobre o sonho do rei Nabucodonosor, que ficou perturbado com tal sonho. Nesse sonho, havia uma estátua colossal com partes metálicas diferentes (2.32-33). De repente uma pedra cortada sem auxílio de mãos destrói completamente a estátua e se torna uma montanha que enche toda a terra (2.34-35).

Daniel interpreta esse sonho dizendo que as quatro partes da estátua eram quatro reinos (normalmente entendidos como a Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma). O quarto reino será eclipsado pelo eterno reino de Deus, que consumirá todos aqueles reinos (2.44).

Antes de Daniel revelar o sonho a Nabucodonosor, nenhum sábio da Babilônia fora capaz de dizer o sonho e sua interpretação ao rei. Isso irritou Nabucodonosor ao ponto dele decretar a morte a todos os sábios do seu reino. Sabendo disso Daniel junto com seus amigos Ananias, Misael e Azarias oram a Deus a respeito daquele mistério (2.14-18). Deus revela o mistério a Daniel (2.19), e esse O louva com o seguinte hino:
Seja bendito o nome de Deus para todo o sempre, porque são dele a sabedoria e a força. Ele muda os tempos e as estações; ele remove os reis e estabelece os reis; é ele quem dá a sabedoria aos sábios e o entendimento aos entendidos. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz. Ó Deus de meus pais, a ti dou graças e louvor porque me deste sabedoria e força; e agora me fizeste saber o que te pedimos; pois nos fizeste saber este assunto do rei” (Dn 2.20-23).

O uso de “mistério” no judaísmo


O termo mistério aparece mais de cem vezes nos Manuscritos do Mar Morto, e a maioria faz alusão a Daniel 2 e 4. Mistério traz conotações escatológicas e hermenêuticas para a comunidade de Cunrã. Em suma, como em Daniel, mistério em Cunrã está ligado à destruição do reino do maligno e com o estabelecimento do eterno reino de Deus:
Mas em Seus mistérios... Deus colocou um fim na existência da perversidade... Ele irá destruí-la para sempre” (1QS. 4.18-19, TA).

Nos escritos judaicos apocalípticos, além da ligação com Daniel, mistério está também associado à vinda do Messias (p. ex. 4 Esdras 12.37-38).

Em 1 Enoque (capítulos 46, 52 e 71), os mistérios também têm seu pano de fundo escatológico no livro de Daniel, significando algo oculto que irá ser revelado nos últimos dias.

O uso de Daniel 2 em Efésios 1

Tanto nos melhores comentários de Efésios como nas monografias e obras sobre Efésios, pouca ou nenhuma atenção se é dada a alusão de Daniel 2 em Efésios 1.8-9. Thorsten Moritz (1996) em sua obra sobre o uso do Antigo Testamento em Efésios começa sua análise somente em Ef. 1.20-23, e assim também o faz Frank Thielman (2014). Nossa análise visa preencher essa lacuna nos estudos do NT. 

Segue abaixo, de forma resumida, os impressionantes paralelos entre as duas passagens: 

1. A revelação do mistério é uma dádiva de Deus. Em Daniel, é Deus quem revela o mistério a Daniel (Dn. 2.19), e faz conhecer esse assunto do rei (2.23). Em Efésios, Deus faz conhecer o mistério da sua vontade aos santos (Ef. 1.9). Daniel, em sua oração pela revelação do mistério, clama pela misericórdia de Deus (Dn. 2.18) e Paulo diz que esse conhecimento é “de acordo com a riqueza da graça de Deus” (Ef. 1.7). Portanto,  ambos os textos ensinam que conhecer tal mistério é um dom gracioso que somente Deus pode conceder, o que exclui qualquer mérito (cf. Dn. 2.30) daqueles que receberam essa dádiva (Daniel, Paulo e os efésios, etc) e qualquer pretensão e possibilidade da capacidade humana em conhecer per se

2. Sabedoria e prudência para conhecer o mistério. Ambos os textos (Dn. 2.23; Ef. 1.8) usam a mesma dupla de palavras para descrever como Deus faz conhecer o mistério: Ele concede sabedoria e prudência (σοφίαν καὶ φρόνησιν), que são usadas como sinônimos ou com significados muito próximos.

3. Doxologia como resultado da revelação do mistério. Tanto o hino de Daniel 2.20-23 como a doxologia de Paulo (Ef. 1.3-14) começam com o “berakah” (Bendito seja [Εὐλογητὸς em Ef. 1.3]). No fim do Hino de Daniel, ele dá graças e louvor (ἐξομολογοῦμαι καὶ αἰνῶ) pela sabedoria e força (σοφίαν καὶ φρόνησιν) que permitiram a ele saber o significado do sonho do rei. Da mesma forma, Paulo termina essa seção (e cada uma das três) com a expressão “para louvor da sua glória” (εἰς ἔπαινον τῆς δόξης αὐτοῦ). Em ambos os textos Deus é glorificado pela revelação do mistério.

4. O mistério como um evento escatológico. Em Dn. 2.28 lemos: “... mas há um Deus no céu, o qual revela os mistérios; ele, pois, fez saber ao rei Nabucodonosor o que há de suceder nos últimos dias (ἐσχάτων τῶν ἡμερῶν)”. Os pensamentos do rei se voltaram às coisas futuras (Dn. 2.29, 45). Da mesma maneira, Paulo ensina que o mistério, que é a convergência de todas as coisas em Cristo (1.10), ocorre na “plenitude dos tempos” (πληρώματος τῶν καιρῶν).

5. O mistério como a vinda do reino escatológico de Deus. Em Dn. 2.44-45 temos: “... mas, nos dias desses reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; nem passará a soberania deste reino a outro povo; mas esmiuçará e consumirá todos esses reinos, e subsistirá para sempre. Porquanto viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro, o grande Deus faz saber ao rei o que há de suceder no futuro. Certo é o sonho, e fiel a sua interpretação”. Como vimos, o ponto alto da interpretação do sonho do rei por Daniel é a destruição dos reinos terrenos e o estabelecimento do reino de Deus. Para Paulo, o mistério é a “convergência” de todas as coisas em Cristo. Há um incansável debate sobre o significado da palavra “convergir” (ἀνακεφαλαιώσασθαι). Ela pode significar: 1. “Resumir”, um argumento de uma fala por exemplo (esse é o sentido do seu uso em Rm. 13.9), reunir todas as partes em um todo coerente, ou; 2. Encabeçar, trazer sob um cabeça. Essa variação é devido ao debate sobre a raiz da palavra, que pode ser tanto “Kephali” (cabeça) como “Kephalaion” (ponto principal, sumário). É possível que ambos os significados estejam em vista em Ef. 1.10. Deus une todo o universo sob a autoridade do seu Rei Messiânico, Jesus. Isso é explicado em 1.20-22, onde Paulo diz que Jesus está à destra de Deus, acima de todo principado, autoridade, poder, domínio e de todo nome que se possa nomear em todas as eras, e que todas as coisas estão sujeitas debaixo dos pés de Cristo. Embora esse propósito seja completamente alcançado na consumação, ele já teve inicio na primeira vinda de Jesus.

Conclusão

Os cinco paralelos acima demonstram claramente a alusão intencional que Paulo faz de Dn. 2 em Ef. 1.8-10. E o ponto é: No fim dos tempos (que iniciou na vinda de Cristo), Deus graciosamente concede sabedoria a seu povo para entenderem o mistério doclímax de seu plano redentor na história, que é a união e sujeição de todas as coisas a Cristo Jesus. Se analisarmos todos os usos de mistério do NT, podemos chegar a duas conclusões: 1. A revelação do mistério é o início do cumprimento das profecias do AT e; 2. Esse cumprimento é inesperado do ponto de vista do AT. Assim, a vinda do Messias Jesus inaugura o reino escatológico de Deus (Dn. 2). Entretanto, o elemento inesperado (no tempo de Daniel) é que Deus sujeitou todas as coisas, até mesmo os espíritos malignos (e não somente os reinos térreos) a Jesus, e que aquela pedra que vira uma montanha e enche toda a terra, pode ser entendida como as boas novas da vinda do Messias e seu reino que é proclamada em toda a terra, fazendo com que pessoas do mundo todo (e não somente os judeus) façam parte do reino escatológico de Deus (esse é o provável sentido de mistério em Efésios 3).

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Bibliografia:
- Bockmuehl, Markus N. A. Revelation and Mystery in Ancient Judaism and Pauline Christianity. WUNT 36. Tübingen: Mohr Siebeck, 1990.
- Brannon, M. Jeff, “The Heavenlies” in Ephesians: A Lexical, Exegetical, and Conceptual Analysis
- Bruce, F. F. Colossians, Philemon, Ephesians. NICNT. Grand Rapids: Eerdmans, 1984.
- Caragounis, Chrys C. The Ephesian Mysterion: Meaning and Content. Coniectanea Biblica. New Testament Series 8. Lund: Gleerup, 1977.
- Cohick, Lynn H. Ephesians: A New Covenant Commentary. NCC 10. Eugene, OR: Cascade, 2010.
- Hoehner, Harold W. Ephesians: An Exegetical Commentary. Grand Rapids: Baker Academic, 2002.
- Liefeld, Walter L. Ephesians. IVP NTC 10. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2010.
- Lincoln, Andrew T. Ephesians. WBC 42. Dallas: Word, 1990.]
- Moritz, T., A Profound Mystery: The Use of the Old Testament in Ephesians (Leiden: Brill, 1996).
- O’Brien, Peter T. Ephesians. PNTC. Grand Rapids: Eerdmans, 1999.
- Schnackenburg, Rudolf. The Epistle to the Ephesians. Edinburgh: T&T Clark, 1991.
- Snodgrass, K., Ephesians: The NIV Application Commentary (Grand Rapids: Zondervan, 1996).
- Thielman, Frank. Efésios em “Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento”, ed. D. A. Carson e G. K. Beale, 2014.

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Autor: Willian Orlandi
Divulgação: Bereianos


quarta-feira, 27 de abril de 2016

Masturbação - considerações morais, bíblicas e refletivas

 

Creio que quase todo jovem cristão já enfrentou ou enfrenta problemas nessa área. Por isso creio poder me familiarizar com muitos jovens (e também adultos) que lerão este artigo. Quero tratar da questão em quatro fases: (i) definição da masturbação, (ii) considerações morais, (iii) considerações bíblicas e (iv) reflexões especiais.

DEFINIÇÃO DE MASTURBAÇÃO

O termo masturbação é usado aqui num sentido mais restritivo, para se referir a estimulações eróticas conscientes e de livre agência, com sentido erótico-genital, que podem ser praticadas solitariamente ou mutuamente, no último caso distinguindo-se da relação sexual em especial pela inexistência de penetração. Nessa definição exclui-se: (i) “masturbações” sem sentido erótico-genital na primeira e segunda infância, (ii) sonambulismo sexual; (iii) sonho erótico (iv) polução noturna e (v) excitação sexual não estimulada.

CONSIDERAÇÕES MORAIS

A masturbação assim definida possui diversos problemas éticos, sendo, portanto uma prática objetivamente imoral. Se olharmos do ponto de vista ético, perceberemos que a masturbação é um desvio do ideal da sexualidade. O orgasmo seria algo como um "pedacinho do céu", do gozo eterno da união mística entre Cristo e a Igreja. Sexo é o símbolo da "união agápica-erótica" entre os cônjuges. Por isso, onde há sexualidade em seu sentido genital deve haver o eros matrimonial, a conexão mística com "o outro", em que a diferença de gênero sinaliza a alteridade, e a marca da conjugabilidade aduz à intimidade. Na masturbação, a alteridade é quebrada, o prazer é destinado a satisfazer a "si mesmo", e não a compartilhar-se com a pessoa amada. Nela resta a estimulação narcísica e egoica do autoerotismo. Quando a prática envolve fantasias sexuais com uma pessoa, está incluso o problema da objetificação do corpo do outro e do desrespeito envolvido na atitude imoral de tomar sem autorização a imagem de uma pessoa como um estímulo para satisfazer seus próprios desejos.

CONSIDERAÇÕES BÍBLICAS

Existe um erro grave quando se argumenta a favor da masturbação com base no silêncio das Escrituras em torno do assunto. Quando a Bíblia não menciona explicitamente uma prática, isso não significa que as Escrituras a autorize. Em casos assim, o que se deve examinar é o conjunto global principiológico da Palavra de Deus e a relação da prática com esse contexto principiológico geral. A Bíblia apresenta muitos princípios importantes, em geral feridos pela prática masturbatória, tais como (i) a pureza moral da mente e dos pensamentos (Filipenses 4.8); (ii) a mortificação de apetites sexuais impuros (Colossenses 3.5); (iii) a evitação de desejos passionais errados característicos da juventude; (iii) a castidade no olhar (Jó 31.1; Mateus 5.28), (iv) o domínio próprio e o controle sobre os desejos da carne (Gálatas 5.22-23; Tito 3.3). 

Precisamos ser sinceros em reconhecer que a masturbação fere os princípios de castidade das Escrituras, por mais que nossa mente depravada busque sempre escusas para recusar a verdade. Quando observamos o Ensino do Cristo percebemos que ele pregava uma moral que excede o mero legalismo dos religiosos da sua época. Em Cristo, como percebemos a partir de uma leitura de Mateus 5.21-37, as intenções e desejos do coração tem um grande valor para Deus, de modo que não só a prática é pecaminosa, mas também a estimulação de pensamentos e desejos imorais ferem o padrão de Deus. Sendo que a fé cristã, considera o sexo antes do casamento pecado, do mesmo modo a estimulação de pensamentos e desejos nesse sentido deve ser evitada, de modo que o Cristianismo considera a prática masturbatória como pecado.

REFLEXÕES ESPECIAIS

A trama significativa do estruturalismo anímico do recalque, a naturalização do reducionismo afetivo e a degradação dos princípios éticos-morais constroem um pensamento que coloca o sujeito casto dentro de um campo de significações e categorizações que lhe roubam a subjetividade. Para o pensamento mundano, aquele que se abstêm de prazeres sexuais por princípios morais, é alguém que baniu sua subjetividade pelo recalcamento das afetações prazerosas. A Revolução Afetiva elevou de tal forma o sentimento, que o colocou como o resumo da construção identitária, e deslocou o próprio ser do campo da existência para o mundo dos afetos. Nega-se aos 'abstêmicos' a própria felicidade, como se o gozo sexual fosse a arkhé da eudaimonia. Não só são excluídos dos afetos positivos, como também são aos abstêmicos atribuídos os sentimentos patológicos de angústias advindos da repressão neurótica. 

O que se põe é - não pode haver felicidade plena sem uma sexualidade livre, e aqueles que não seguem essa regra, são os que a dominação social infundiu-lhes a ojeriza pelo sexo - são os reprimidos, alienados da subjetividade. Mas será mesmo assim? Não pode a busca do desenvolvimento do autodomínio e da continência significar uma vivência subjetiva legítima de contactar a própria sexualidade? Não há porquê ver no exercício vivencial da continência um necessário recalcamento da sexualidade ao mundo do Inconsciente, ao contrário, controlar os próprios desejos sexuais e direcionar a própria libido é uma atitude da consciência em contato com a própria sexualidade. Ou mesmo se falarmos do recalque, não seria a sublimação e o direcionamento da libido sexual para atividades de "latência" de práticas excelsas uma atitude louvável? Ainda, não estaria o verdadeiro sentido da dignidade humana na possibilidade de transcendência sobre os domínios instituais? E não fazem parte de uma profunda vivência subjetiva os próprios conflitos, dificuldades e angústias que podem daí emergir? 

A luta contra a masturbação ajudará um jovem (ou mesmo adulto) cristão a conhecer melhor sua própria sexualidade. Por isso os que lutam contra esse pecado devem observar qual é maneira que seu corpo, uma parte do si mesmo, lida com a sexualidade. Avalie quais são os padrões de comportamento, os tipos de estímulos, ambientes que costumam te levar a se masturbar. Observe também qual a forma que você costuma se masturbar, bem como as fantasias sexuais ligadas ou não ao ato. Conhecer todos esses aspectos na luta contra a masturbação, lhe ajudará a desenvolver não só melhores meios de cultivar autodomínio como também o levará a vivenciar de perto seus conflitos éticos-morais e a conhecer sua própria sexualidade. Se esforce em desenvolver autodomínio, e em evitar certos padrões de comportamento e ambientes sexualmente estimulantes. Conheça a si mesmo, vivencie seus conflitos morais e desenvolva autodomínio. Saber controlar e administrar seus próprios desejos sexuais é uma manifestação da dignidade humana, enquanto imagem do Criador.

Lidar com o sentimento de culpa nesse processo pode também ser difícil. Mas a culpa também é, na medida certa, positiva, para a vivência subjetiva de nossos conflitos ético-morais, mas em exagero é um mal. Por isso não se esqueça das inspiradas palavras do apóstolo do amor: “Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados de todo o mundo.” (1 João 2:1,2) e ainda: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1 João 1:9).
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Autor: Bruno dos Santos Queiroz
Divulgação: Bereianos


Supralapsarianismo ou Infralapsarianismo?

 





quinta-feira, 14 de abril de 2016

Em decisão polêmica, Igreja Batista do Pinheiro libera batismo de homossexuais

 

"Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a morte". A passagem está na Bíblia, mais precisamente no livro de Levítico 20:13. A sociedade da época do texto considerado sagrado pelas religiões cristãs, porém, era outra: ele foi escrito entre 1500 e 450 a.C.
Muitos séculos depois, a realidade já é bem diferente e as transformações sociais permitiram que distintos tipos de amor se integrassem à convivência coletiva. O preconceito, claro, ainda existe, mas até mesmo algumas igrejas vêm trabalhando para combatê-lo. É o caso da Batista do Pinheiro, em Maceió, que, em uma decisão inédita entre as evangélicas, permitiu que homossexuais se tornem membros da denominação.
A decisão foi tomada em assembleia extraordinária realizada no último dia 28 de fevereiro e teve maioria absoluta de votos dos presentes: 129 se posicionaram a favor, três foram contrários e 15 se abstiveram. Comandada pelo pastor Wellington Santos, a congregação já vinha trabalhando o tema há dez anos - desde 2005 a abertura para gays é discutida no templo do Pinheiro.
O início foi mais conturbado, mas o ministro conta que aos poucos o tema foi sendo aceito. "A comunidade, de forma muito amorosa e respeitosa, foi permitindo que irmãos e irmãs homossexuais pudessem exercitar seus dons de forma espontânea. Na Igreja Batista do Pinheiro, nossos irmãos e irmãs já foram aceitos em amor, nos corações e na convivência harmoniosa", diz.
Ele destaca que homossexuais já participavam de atividades como a escola bíblica, a comissão jurídica e o Ministério de Juventude. Com a mudança de mentalidade, agora eles poderão ser batizados. E o pastor cita justamente a Bíblia como norte para as decisões da congregação - e também para responder aos apontamentos de que eles seriam uma igreja "aberta demais".

Pastor diz que homossexuais são recebidos com amor
FOTO: JOBISON BARROS
"Jesus foi rotulado pelos fariseus de muitas coisas que eram inverdades (Mateus 10:24-26 e 11:19). Não perdemos tempo rotulando ninguém. É bom destacar que ser considerada uma igreja aberta por amar incondicionalmente e seguir radicalmente o caminho de Jesus quando afirmou que não veio julgar e sim salvar (João 12:47), para nós é elogio. Não queremos ser juízes de ninguém, mas sinal de esperança e descanso para os que estão cansados e sobrecarregados com julgamentos e acusações (Mt. 11:28-30)".
Ameaças
Segundo o pastor, a decisão de que homossexuais pudessem ser membros da igreja foi um processo longo. Além de debatida durante uma década, a questão também foi alvo de "muita oração, reflexão, estudos bíblicos e acima de tudo um exercício de escuta pedagógica e espiritual profunda", como ele revela. O que não impediu, contudo, a revolta de alguns.
Depois da abertura da comunidade evangélica para essa nova realidade, ele vem recebendo ameaças em uma rede social e até atender uma simples ligação se tornou algo complexo. "Até o telefone estou atendendo com cuidado. Tem muita gente ameaçando. Se você for na minha fanpage do Facebook consegue ver lá. Tem gente me xingando, me agredindo. Está público".
As intimidações não são novidade para o sacerdote. Ao longo do processo de debates, a esposa dele, Odja Barros, também foi ameaçada. Na época presidente da Aliança de Batistas do Brasil, ela manifestou, em uma entrevista, a opinião favorável não só à abertura da igreja, mas também à aprovação do reconhecimento da união civil de pessoas do mesmo sexo no Supremo Tribunal Federal (STF).
"As ameaças chegaram via e-mail", lembra Wellington Santos. "Ela era presidente da  Aliança de Batistas do Brasil e manifestou sua opinião como presidente em nome deste grupo. Lidamos com as ameaças de forma tranquila, até porque nossa igreja tem nos protegido e nos livrado das maldades humanas com muito amor e oração", ameniza o sacerdote.
Revolta
Na rede social, internautas miram a revolta tanto no pastor quanto na igreja em si. Um deles chama o templo de "sinagoga do Satanás" e diz que ele "rasga a Bíblia e prega um falso amor que levará muitos ao inferno". Outro revela estar "enojado" e afirma que a "ira de Deus se revelará no juízo final". Até acusações de apologia a crimes como a pedofilia podem ser encontradas nos comentários. 
O reverendo não se deixa abalar e ressalta que a diferença em relação às demais denominações evangélicas é que, no Pinheiro, não é preciso esconder a condição sexual por medo de rejeição ou exclusão. Ele afirma que a visão das religiões sobre a homossexualidade é algo amplo, mas ele destaca que, na Batista, "o que a igreja pensa é o conjunto daquilo que pensam todas as pessoas que a compõem" - e a decisão foi tomada pela maioria. 
"O que a Igreja Batista do Pinheiro fez revela que, mesmo não tendo todas as respostas para a questão da homossexualidade na Bíblia ou na doutrina histórica, decidimos seguir o caminho do amor. O que afirmamos é que cremos no amor e na misericórdia divina", conta. "Como igreja vamos continuar estimulando o respeito, paciência e amor com relação aos que pensam diferente acerca de qualquer assunto".
Igreja Católica acolhe homossexuais
Na Igreja Católica, a temática também tem sido bem-aceita, como diz o padre Manoel Henrique. De acordo com ele, não há proibições para que homossexuais se batizem e participem da comunidade - dos movimentos até a comunhão e a liturgia - e o posicionamento é estimulado inclusive pelo Papa Francisco, líder máximo dos católicos apostólicos.
"As igrejas evangélicas têm um olhar mais moralizante em cima das opções sexuais. A Católica está revendo sua praxe pastoral e sacramental de acordo com a orientação do Papa Francisco, que este ano pediu que realizássemos o ano santo da misericórdia, para não excluir ninguém da comunidade por razões de qualquer ordem. Jesus Cristo não fez um evangelho moralista; ele fez para acolher quem quer trabalhar pelo reino de Deus".
Ele também diz que a Bíblia não deve ser usada como única diretriz na hora de se pensar a presença de gays dentro da religião. O sacerdote afirma que as passagens que tratam do assunto são "minúsculas" e estão todas no Antigo Testamento, não incidindo na prática da igreja de uma maneira geral. 
"No tempo dos judeus, por exemplo, não se comia carne de porco. Até hoje eles não comem, inclusive. Vai se prosseguir com isso? Não. Há muitas coisas que são próprias de cada tempo e essa questão da homossexualidade não entra no quadro dos 10 mandamentos, assim como o evangelho não traz nenhuma criminalização em cima dos homossexuais", afirma.
Assembleia de Deus não batiza gays
O mesmo pensamento não acomete, contudo, outras denominações. Com 1.500 templos e 170 mil membros, além de 30 a 40 mil frequentadores esporádicos, a Assembleia de Deus diz se guiar pelos escritos bíblicos na hora de pensar a homossexualidade - por isso, a questão continua sendo tabu por lá e homossexuais não podem fazer parte da congregação efetivamente.
Pastor, teólogo e bacharel em Direito, José Laelson da Silva afirma que gays podem frequentar os cultos, mas não ser batizados. "Não oportunizamos que a pessoa que está na prática do homossexualismo* se torne membro da igreja. Recebemos quem porventura se diga homossexual e as portas estão abertas sem nenhuma discriminação, mas não permitimos que se torne membro, o que acontece pelo batismo nas águas".
Ele destaca que o mesmo vale para outras "práticas reprovadas pela Bíblia", como o adultério e o alcoolismo. Para se batizar, é necessário que o interessado "largue a prática" - no caso de um homem casado, sua amante, por exemplo. "Se a pessoa não quiser deixar, nós respeitamos, mas não batizamos, porque não temos essa obrigação", acrescenta o sacerdote.
Na opinião dele, as religiões não devem se adaptar às pessoas, mas sim o contrário. Laelson expõe que seria impossível às igrejas se adequarem a um "mundo mutável, que cria novos comportamentos a cada dia", mas que algumas concessões já foram feitas, como a abertura para o divórcio e a aceitação da pílula anticoncepcional. Mudanças "salutares e positivas", classifica ele.
"A igreja já se adaptou, mas a mudanças salutares, que contribuíram para o bem-estar das pessoas", diz. "Na questão do homossexualismo e das drogas é diferente. No Congresso Nacional tramitam projetos para legalização das drogas. Vamos admitir, hipoteticamente, que no futuro as drogas sejam liberadas. A igreja evangélica vai aceitar membros que se droguem? Claro que não. Há mudanças salutares que a igreja abraça por entender que elas são positivas, mas outras se chocam frontalmente com a Bíblia".
Ainda assim, ele diz que a Assembleia de Deus respeita o posicionamento das demais congregações. "Respeitamos o posicionamento de outras igrejas que dão abertura para que pessoas que estão na prática do homossexualismo sejam membros. Respeitamos a individualidade das pessoas e das igrejas. O que sei é que essa não é a postura da Igreja Batista no Brasil, que mantém o mesmo posicionamento das demais igrejas, pois tem como base as escrituras sagradas".
Grupo Gay comemora decisão da Batista

Nildo Correia comemora avanço da Igreja Batista
FOTO: REPRODUÇÃO
Membro do Grupo Gay de Alagoas (GGAL), Nildo Correia questiona essa visão. Segundo ele, os textos bíblicos trazem passagens relacionadas à sodomia - práticas consideradas como perversões sexuais - e não à homossexualidade. Ele também faz duras críticas a correntes religiosas que, na opinião dele, lucram com a crença dos fiéis que as procuram.
"Se a gente for levar a fundo, o comércio da religião também é pecado. Infelizmente vivemos em um mundo onde as regras só servem para a casa do vizinho. Hoje, muitas igrejas arrecadam com a palavra de Deus e a Bíblia mesmo é contra isso. E outra: a Bíblia também é clara. Ela não fala em homossexualidade, fala em sodomia. Sodomia é promiscuidade e pode ser um gay ou um hetero". 
Ele enxerga a ação da Igreja Batista do Pinheiro como positiva e lembra que a congregação vem trabalhando há vários anos na inclusão da população LGBT dentro do meio religioso. Em 2014, inclusive, o templo chegou a ser espaço de um culto em solidariedade às vítimas da homofobia, além de ter participado do ciclo de ativismo realizado pelo GGAL.
"A Igreja Batista do Pinheiro é um dos grandes parceiros do movimento contra a homofobia aqui em Alagoas", afirma. "Quem começou todo esse trabalho foi o pastor Wellington. Lembro que houve alguma repressão por parte dos fiéis, mas ele conseguiu seguir adiante. Vários homossexuais, inclusive do movimento LGBT, participam e frequentam a igreja. O primeiro passo, que é o grande passo, é a aceitação", acrescenta. 

Batista do Pinheiro: decisão permite que homossexuais sejam batizados
FOTO: JOBISON BARROS

Frequentadora da Igreja Batista durante anos, apesar de hoje morar em outro estado e não fazer mais parte da congregação, Rebeca Santos aprova a abertura. "Senti que foi uma decisão ousada (no lado bom da palavra), segura e consciente. Afinal, eles estudaram o tema durante anos e sabiam o que estava em jogo. Eles estão de parabéns pela coragem de abordar um tema que incita tanto ódio no meio evangélico", afirma ela, que é homossexual. 
"Eu sinto que a Igreja priorizou o segundo mandamento mais importante de Deus: amar aos outros como você ama a si mesmo e sinto também que ela teve muito empatia para com os homossexuais. Isso é ótimo, principalmente para aqueles que já frequentaram igrejas e se sentiram constrangidos a saírem, quando não são expulsos)", acrescenta ela, que conta ter ficado irritada com os comentários dirigidos ao pastor. "Acho que isso vem da intolerância e dificuldade de adaptação aos novos tempos. Afinal, a escravidão também era aceita pela Bíblia e hoje é um ato criminoso. No entanto, não vejo tais pessoas defendendo-a, já que é bíblica, entende?", reflete.
*O termo homossexualismo era usado para definir como uma doença a relação entre pessoas de mesmo sexo. Hoje o termo correto é homoafetividade ou homosexualidade.

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Fonte: Gazeta Web 

Via: Mulheres Sábias - Blog da Rô 



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