Cinco Votos para Obter Poder Espiritual.

Primeiro - Trate Seriamente com o Pecado. Segundo - Não Seja Dono de Coisa Alguma. Terceiro - Nunca se Defenda. Quarto - Nunca Passe Adiante Algo que Prejudique Alguém. Quinto - Nunca Aceite Qualquer Glória. A.W. Tozer

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

PARA ALÉM DO “INTEGRAL”, O ETERNO

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 “Perambulamos distantes de Deus. Se desejamos retornar à casa de nosso Pai, este mundo deve ser usado, não desfrutado, para que, assim, as coisas invisíveis de Deus sejam vistas claramente, sendo entendidas pelas coisas que são criadas – isto é, por meio do que é material e temporário possamos apreender o que é espiritual e eterno” – Agostinho de Hipona.
Se essa declaração de Agostinho lhe causou mal estar, talvez você tenha um problema. Talvez 0 mesmo que eu tive.
Por muito tempo fui um dualista, buscando as “coisas espirituais” e ignorando a história e a matéria. Educado em uma igreja batista “renovada” e dispensacionalista, tive uma experiência real com Jesus Cristo, e experimentei a graça como uma explosão de amor, na minha adolescência. E com ela veio um terrível mal estar em relação à cultura. Como muitos que percebem essa antítese entre o Reino de Deus e o espírito desse mundo, eu só esperava Jesus voltar.
Então, há uns dezoito anos, passei por uma revolução teológica, entendendo que o evangelho é integral, e inclui a matéria e a história. Foi uma libertação entender que parte da minha angústia em relação ao “mundo” vinha do próprio isolamento cultural em que vivíamos, da falta de categorias para absorver o contraste entre a espiritualidade cristã que eu conhecia e a opacidade de sentido e de moralidade na qual viviam meus incrédulos colegas de sala-de-aula. Desse momento em diante não podia evitar a estranheza ao olhar para antigos “professores” como Keneth Hagin e modelos melhores mas ainda fora-do-eixo, como Watchman Nee (sim, atravessei muitos vales e montanhas antes de me tornar reformado).
Equilibrar-se, no entanto, não é coisa fácil. Na ânsia de combater o “platonismo”  esqueci-me da assimetria entre o Eterno e o temporal, que é parte integrante do cristianismo clássico. Lembro-me de ver os “crentes” típicos, alienados, aguardando Jesus voltar, quase como se fossem fiéis de outra religião. Não estava completamente errado; o gnosticismo é outra religião mesmo. Todo “cristianismo” que recusa a bondade da criação e deseja fazer a assepsia da finitude é gnóstico, tenha ele forma piedosa do asceticismo extremo no romanismo, na igreja oriental ou no puritanismo evangélico, tenha ele a forma iconoclasta da recusa revolucionária das formas concretas e imperfeitas da vida social, como encontramos na tradição política da esquerda. A essa altura, eu subscrevia completamente declarações como a que se segue:
“Não se justifica a concepção da vida plena em termos exclusivamente espirituais. A teologia segundo a qual a vida que Cristo oferece é uma vida ultramundana para além da história, é aparentada ao pensamento grego com sua ênfase na dicotomia entre eternidade e o tempo, a alma e o corpo, o espiritual e o material. Necessita ser corrigida pela visão bíblica, para a qual a esperança escatológica inclui uma nova criação” – René Padilla (Deus e Mamon).
O grande teólogo latinoamericano está certo: o platonismo corrompeu a relação da igreja cristã com a matéria e a história. E Agostinho era… um platonista. Ou, ao menos, alguém muito influenciado pelo platonismo. Mas isso não é a história toda:
“pois não fixamos o olhar nas coisas visíveis, mas naquelas que não se veem; pois as visíveis são temporárias, ao passo que as que não se veem são eternas.” – Paulo Apóstolo (em 2Coríntios 5)
Lembro-me de sentir desconforto lendo esse e vários outros trechos do apóstolo, e como professor de Novo Testamento em uma Faculdade Teológica, tinha certeza de haveria uma explicação “não platônica” para eles. Mas não era  fácil; descobri, que esse e outros trechos paulinos como 1Coríntios 7.29-35 são estudadamente ignorados pelos articuladores de teologias de engajamento histórico e transformação, e a certa altura a pergunta que lutava para emergir não pôde mais ser reprimida: Agostinho era meramente platônico ou não seria simplesmente bíblico? O que estaria por trás do meu incômodo em reconhecer que o pensamento bíblico tanto sustenta a dualidade de eterno e temporal, quando sustenta uma assimetria de valor entre o eterno e o temporal?

De repente toda a questão mais específica da relação entre evangelização e responsabilidade social, e da alegada inexistência de uma prioridade entre evangelização e transformação histórica na missão abriu-se de novo como uma ferida mal-curada. Em 2003 eu estava no CBE2 no SESC em Belo Horizonte quando ouvi o Dr. Russell Shedd defender a prioridade da evangelização e ser logo depois refutado por um teólogo da Missão Integral, para quem essa distinção nem existiria. Saí de lá irremediavelmente incrédulo.
Não da integralidade da missão, que abraço com todo o coração e alma, mas da inexistência de uma dualidade. Mais do que isso até, da inexistência de uma dualidade e de uma assimetria. Exilado de meus recentes confortos teológicos e missiológicos vi-me de novo sozinho num deserto de incertezas, com poucas gotas de satisfação teológica aqui e ali. Lá para 2005 comecei a lançar perguntas sobre os limites da assim-chamada “teologia da missão integral”, que ainda considero cruciais, mas o centro do problema continuava escapando das minhas mãos. Aos poucos eu entendia que a questão era muito maior do que um problema com o discurso de missão integral, tendo relações com a totalidade do discurso moderno de progresso e com a perda de uma teleologia Cristã na cultura ocidental. Ainda se passariam alguns anos antes que eu agarrasse a questão pelo pescoço.
Mas finalmente aconteceu, há uns poucos anos. Alguns dariam sorrisos com o canto da boca ao ouvir-me descobrindo o que sempre lhes foi óbvio, mas não me importa. Redescobrir a assimetria foi como reencontrar um velho amigo. Reconciliei-me com o adolescente que lutava contra o mundo com medo, sim, mas que estava apaixonado pelos céus, e não sabia bem o que fazer com isso. Foi uma alegria dizer a ele que não precisava ter medo da história e da matéria, pois elas mesmas eram suas janelas. “Abra-as bastante, olhe através delas!” E abraçado ao adulto, o adolescente viu os céus.

E o jovem engajado com a história, convicto de que o cristianismo é material, nem ele ficou de lado. Entendi que vale a pena ter um corpo, uma profissão, uma militância, um pertencimento, mas não por que eles nos definam, hoje. Todas essas coisas terminarão no túmulo: trabalho, luta política, justiça social, ciência, arte, sexo, família, igrejas… Mas isso não tem problema. Um dia todos os nossos túmulos ficarão vazios.
Mas esses corpos nunca voltarão como eram, nada continuará como é; há uma brutal descontinuidade entre o corpo dessa morte e o corpo celestial. Há descontinuidade e assimetria, pois a ressurreição não é repristinação, mas ascensão. O corpo celestial não é a mera legitimação do corpo terreno, mas a transparência da matéria e da história para o eterno. E, no fim, é este o seu valor: que contenha o infinito.
Isso faz diferença? Faz, muita. Muda suas prioridades, sua sensibilidade, suas urgências. Muda sua avaliação do que significa ser relevante. Muda sua devoção, e já aviso: é um veneno mortal contra toda ansiedade pragmatista, de “mudar o mundo”, cuja raiz não seja a pura compaixão pelo outro. Quanto aos sonhos revolucionários e as paixões da revolta juvenil, esses terminarão reduzidos a pó. E para seu desespero, você se pegará sonhando acordado com um avivamento espiritual mais vezes do que com coisas decentes e respeitáveis, como uma sociedade sem injustiça – que é o que qualquer pessoa normal faz.
Hoje percebo claramente que em ambas as etapas do meu progresso espiritual aprendi coisas importantes, mas vivi graves incompletudes. Paulo, Agostinho, Boaventura, Tomás de Aquino, Benardo de Claraval, Calvino, Jonathan Edwards e tantos outros, não eram neandertais teológicos que não haviam compreendido o que é um cristianismo maduro e historicamente responsável – que nós, modernos, compreendemos. Não, meus amigos, esses homens sabiam das coisas. A igreja de Jesus sempre soube das coisas, muito antes de Kuyper ou René Padilla.
Não nos ensinou o Senhor que “todas as coisas” é o que recebemos quando buscamos “primeiro o Reino”? Como, então, poderíamos confundir o “reino” com “todas as coisas?” Ser integral, é amar e reconhecer todas as coisas. O Reino de Deus é integral, sim; mas isso não é o mais importante. A coisa mais importante sobre o Reino de Deus não é que ele seja integral, mas que ele é divino. E essa divindade é o que torna sua integralidade tão bela.
E essa é a forma clássica da doutrina Cristã: perder o finito para ganhar o infinito, sem nunca desprezar o finito; e em virtude do infinito retomar o finito, para sempre. A fé encontrará na matéria e na história, e viverá por meio da matéria e da história, e transparecerá por meio da matéria e da história, aquilo que vai além delas, além da  “integralidade”: o Eterno.
Autor: Guilherme de Carvalho 
Fonte: Site do autor 

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